Pintoras do futuro
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quarta-feira, 18 de junho de 2008
André Amorim<BR>Equipe da Folha 
Se ela pudesse escolher, seria verde piscina, mas a casa popular que coube a Hilda Bilda Ferreira é cor de areia. Tudo bem, o importante é que ela é minha, reconhece a moradora da Vila Terra Santa, uma ocupação irregular localizada no bairro Tatuquara, região sudoeste de Curitiba. Ela é uma das pessoas que serão transferidas para o conjunto de moradias Laguna, um projeto da Companhia de Habitação Popular do Paraná (Cohab) que prevê o reassentamento de 479 famílias que hoje vivem em situação de risco, em fundo de vale e áreas de manancial, onde estão sujeiras a alagamentos.
Mas a relação de Hilda com sua futura residência vai além da simples opinião sobre a cor das paredes. Ela faz parte de um grupo de 24 mulheres que foram recrutadas pela Construtora e Incorporadora Squadro, empresa contratada pela Cohab para realizar o projeto, para pintar as casas onde irão morar. O objetivo da ação é melhorar as condições de moradia e a renda da população e estreitar os vínculos dos moradores com seus futuros lares.
A grande maioria dessas mulheres nunca havia manuseado um pincel antes de chegar ao Laguna. A líder comunitária de Terra Santa e uma das trabalhadoras do conjunto, Rosalina de Siqueira, conta que até então só pintava panos de prato em casa. Antes do prefeito vir fazer o sorteio (das casas) eu perguntei pra um engenheiro se ele não me arrumava um emprego. Não é que ele arrumou mesmo, brinca.
Para aprender as técnicas de trabalho, já que muitos não tinham intimidade com o ofício, todos os contratados, homens e mulheres, receberam um treinamento durante aproximadamente 15 dias antes de iniciarem os trabalhos. Procuramos explorar o que cada um sabia melhor, diz o fiscal da obra Ataíde Ribeiro. Devido a atenção e ao capricho que dedicam aos detalhes, as mulheres ficaram com a pintura.
A escolha é confirmada pelas trabalhadoras. Pra finalizar o acabamento tem que ser mulher, opina Sheila Bráz da Silva, futura moradora da casa 13 da quadra 14. Ela teve a sorte de trabalhar na pintura da sua própria residência, que tem cor verde água, mas garante que tem o mesmo cuidado com as casas das colegas. A jovem de 27 anos não esconde o orgulho do seu futuro lar: É a mais bonita que tem, derrete-se.
Sheila já pensou até na decoração e nos primeiros móveis que terá que adquirir. Seu filho de 4 anos também foi ao local conhecer o futuro quarto e fez pedidos. Ele quer uma cama de casal, conta. Ainda não há data definida para a mudança, o que aumenta a ansiedade da trabalhadora. A gente só não fica sem dormir porque chega muito cansada do serviço, relata.
Apesar do trabalho sério, no canteiro de obras o clima é de descontração e coleguismo. Geralmente trabalham duas mulheres em cada casa. É animado, a gente brinca, faz amizades, diz Sheila, que reencontrou no trabalho uma amiga que não via há 12 anos.
Na semana passada, a empresa promoveu um churrasco de integração para os trabalhadores. Num ambiente onde convivem homens e mulheres, a palavra de ordem é respeito. Até agora não precisei puxar a orelha de ninguém nem chamar a atenção, diz o fiscal Ataíde.
Apesar da aparente aspereza do trabalho, sobra lugar para a vaidade das pintoras. Segundo Sheila, as unhas pintadas ficam bem protegidas pelas pesadas luvas e o capacete impede que a poeira estrague o cabelo. Depois chega em casa, toma um banho e fica tudo normal, garante.


