Pouco menos de dois meses depois do ataque às Torres Gêmeas, no dia 10 de novembro de 2001, era criado o primeiro Clube de Troca de Curitiba, no Sítio Cercado. A primeira experiência brasileira, a de São Paulo, completa dez anos em 2008. O modelo implantado em Curitiba foi espelhado no argentino, uma alternativa desenvolvida para contornar os abalos econômicos sofridos em meados dos 1990 ao promover uma rede paralela ao comércio tradicional. A proposta reúne conceitos variados, muitos dos quais partem do Socialismo, como a valorização do trabalho, sendo, assumidamente, um embate com o Capitalismo.
  O grupo de 11 pessoas reunidas naquele dia de novembro, entre elas Lourdes Marchi, 63, que trouxe o modelo da Argentina, onde participou de um seminário sobre o tema em 1999, pensou em nomes como girassol, colméia ou solidário para batizar a moeda que correria naquele primeiro dos clubes. Optaram por ‘‘Pinhão’’, fonte de sustento de muitas famílias e que, da pinha, gera novas árvores ou ainda é espalhada pela gralha azul. ‘‘É a desconstrução do mito do dinheiro, pois as pessoas acham que ele é tudo na vida’’, explica Lourdes.
  Hoje, 13 grupos se reúnem de maneira periódica – a cada 15 ou 30 dias – para realizar as trocas com intermédio da moeda Pinhão, distribuída pelo ‘‘ecobanco’’. Um 14º grupo, de Piraquara, utiliza moeda própria.
  O Pinhão vem em cédulas de 0,50, 1, 2 e 5. O verso de cada uma explica sua função. ‘‘Esta moeda só serve como elemento de intercâmbio dentro do Clube de Trocas. Sendo assim, não pode ser trocada por dinheiro. Simboliza a cooperação, a solidariedade e o compromisso de cada um com a construção de um mundo melhor.’’ Quando criado, um pinhão valia um litro de leite (que custava, à época, R$ 0,98). Hoje, a paridade é de 1 para 1 com o Real.
  Ainda que a idéia esteja dentro da proposta de ‘‘economia solidária’’ – o baixo valor das notas reforça a proposta de não-acumulação – é natural que o sistema criado seja regido pelas leis econômicas. ‘‘Pedimos para as pessoas trazerem coisas que, no total, não tenham valor superior a cinco pinhões. Seguimos as regras da Economia e só espalhamos o número de moedas necessárias. Do contrário, tem inflação.’’
  Lourdes fala com a lembrança em mente de que, na Argentina, algumas pessoas começaram a acumular capital quando a moeda de trocas passou a ser aceita pelo comércio, contrariando o preceito pregado pela organização de viver com o necessário.
  Em Curitiba, a ONG por trás da proposta, a qual Lourdes participa, é o Centro de Formação Urbano Rural Irmã Araújo (Cefuria). Os espaços que recebem os encontros são todos cedidos pela Igreja Católica e alcançam, além de Curitiba, Almirante Tamandaré e Pinhais, municípios da região metropolitana da cidade.
  Hoje, membros da ONG acompanham os grupos como animadores, mas, dizem, têm a esperança de que eles sejam auto-geridos. ‘‘Esse é o grande desafio. Cada um que tem a liderança em mãos tem dificuldade de passar ao próximo. O ideal seria que o ato de liderar fosse rotativo’’, comenta Gisele Carneiro. Formada em serviço social, ela escreveu um livro sobre os Clubes de Troca em Curitiba e coordena alguns dos grupos em atividade na cidade.

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