PETS DE FAMA - Animais no cinema: tudo por um biscoito!
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sábado, 22 de setembro de 2007
Bruna Fioreti<br>Agência Estado 
São Paulo - Julianne Moore está sentada na sarjeta chorando. Seu fiel escudeiro aparece, tristonho, e lambe seu rosto com pesar. Ganha um afago. O plano de filmagem está aberto. Acrescente-se chuva a essa cena e ela fica mais viva, mais dramática - e mais difícil para o adestrador Alexandre Rossi, 34 anos, responsável por fazer o cachorro em questão andar debaixo da chuva, devagar, lamber o rosto da atriz lentamente... E tudo bem longe dele.
Rossi estava preocupado quando falou com a reportagem. Tinha acabado de saber que a primeira cena do cachorro no filme ''Ensaio Sobre a Cegueira'', do diretor Fernando Meirelles, teria chuva. Isso aumenta - e muito - a complexidade de sua tarefa insólita: fazer um cão alegre e bem-humorado simular tristeza. Tudo por um biscoito. O problema é que, dessa vez, a tarefa de recompensar o animal com o quitute ficou para Julianne Moore e não para o experiente adestrador.
Tempo é dinheiro - Mas não há tempo para lamúrias: no set de filmagem tudo custa caro. Rossi paga por atrasos e definitivamente não quer errar. Ele é figura fácil nos bastidores de comerciais, filmes, séries e tudo o que envolva animais. ''Esse mundo do cinema é muito pequeno'', diz ele, ao explicar por que é tão solicitado para as gravações. Para treinar os animais de ''Ensaio Sobre a Cegueira'', Alexandre tem pouco mais de uma semana.
Os primeiros cinco dias ele já perdeu porque os cães da raça Airdale Terrier, que havia escolhido para o longa, estavam doentes. Outro imprevisto. O jeito foi marcar para outra hora, numa praça de São Paulo, um teste com seis cães da raça. Desses, dois vão para Montevidéu, no Uruguai, gravar a cena com Julianne Moore.
O telespectador só vai ver um cão no filme, mas pelo menos três estão no ''elenco''. Os bichos também precisam de dublês, conforme explica o adestrador: ''Às vezes, sou até considerado chato, mas me preocupo em só trabalhar com o animal se ele também estiver curtindo''. Para o cachorro, boa parte das tarefas é encarada como brincadeira. Isso no método usado por Rossi, batizado de Adestramento Inteligente. O animal aprende porque recebe um benefício. É o tal biscoitinho... ''Eles adoram, mas claro que não dá para deixá-los só com isso, nós os alimentamos durante a filmagem.''
Cuidados de estrela - Alexandre Rossi cuida dos animais como pouca gente é cuidada. Ele sabe o que fazer para deixar um cachorro comportado e feliz. Contribuem para isso as viagens pelo mundo para lidar com cães, gatos, elefantes, macacos e até ornitorrincos. Experiência que usa nos sets, onde o prazo é curto, o custo é alto, mas o retorno é proporcional à repercussão do filme.
''Costumo até gravar 'making of' para comprovar que trabalho sem causar dor a eles''. Está aí um traquejo de quem está ligado à tevê e ao cinema: ser fiel ao que pensa e aguentar a pressão com toda a rapidez. Claro que o nervoso de ter de treinar às pressas um animal cansa. Mas se é com bicho, Rossi sente-se em casa... ''É como se eu estivesse fazendo meu hobby o dia inteiro'', resume.
Desde pequeno, queria sempre estar próximo aos bichos. Tudo começou com um aquário que ganhou aos 5 anos. ''Em pouco tempo fazia apresentações com os peixes que adestrei.'' Hoje não tem bicho em casa, porque viaja demais.
Mas guarda seu carinho para duas cadelas vira-latas bem comportadas: Sofia e Laila. Treinadas, são capazes de se comunicar por um painel eletrônico. Apesar de, em casa, serem tratadas como bichos, as cadelas são quase como ''filhas'' para Rossi e sua ex-mulher. Desde que se separaram, decidiram: de dia, as cadelas ficam com ele; à noite, com ela. Um final feliz (e civilizado) para cães e humanos.


