Episódio de proporções épicas, a fuga de índios em 700 canoas através do Rio Paranapanema até o encontro com as Sete Quedas, em Guaíra, não naufragou com a inundação das ruínas da Redução Jesuítica de Santo Inácio do Ipaubacu, no município de Santo Inácio (11 quilômetros ao norte de Maringá), pela represa da Usina de Taquaruçu.
Com as novas pesquisas arqueológicas e históricas na região - que deve ganhar infra-estrutura para receber turistas em 2007 - a dramática saga retoma o curso do rio, refletindo as suas águas num dos últimos vestígios da teocrática República Guarani.
Restam apenas 13 hectares da área total de 50 alqueires tombada pelo Estado onde está o sítio arqueológico, sendo que grande parte foi ocupada por grileiros, que sepultaram os resquícios de uma verdadeira cidade em plena floresta ao plantarem roças em cima do passado.
Rodeado de lendas e mitos, que povoam os fatos históricos, o sítio arqueológico repousa no que sobrou dessa área, sendo que sete hectares descansam embaixo da água na represa da usina de Taquaruçu, inaugurada em 1992.
No Paraná existiram 16 reduções. Santo Inácio e Nossa Senhora de Loreto são as duas únicas que os pesquisadores conhecem a localização, compondo uma pequena parte do mapa da República Guarani, que por 200 anos ocupou o Uruguai, Argentina, Paraguai, e parte do Estado do Rio Grande do Sul (RS) até ao Guairá - uma imensa região que se estendia da atual cidade paranaense de Guaíra, à confluência dos rios Paraná e Paranapanema, ao norte de Londrina e Maringá.
O alarido da fuga da espada dos bandeirantes dispersou os mais de 200 mil índios que habitavam a extensa área do Guairá, mas ainda é possível escutá-los, bem como ver seus rituais, através dos fragmentos do passado encontrados no sítio arqueológico.
O acesso à Redução de Santo Inácio é um desses caminhos em direção ao passado, que chegamos pela PR-340, entrando pela estrada vicinal das ruínas. Esse último trecho precisa ser pavimentado para facilitar a visitação.
Um projeto apresentado pelo Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Etno-História da Universidade Estadual de Maringá (UEM) à Secretaria de Ciência e Tecnologia no valor de R$ 377.049,00, garantirá dois anos de pesquisas no sítio arqueológico, permitindo também o investimento numa infra-estrutura mínima para receber turistas - o que significa uma nova alternativa de renda para o município de cerca de 5 mil habitantes e estruturado economicamente na agropecuária.
O projeto prevê ainda as construções de um portal de entrada do sítio arqueológico e de um museu para exposição permanente de peças encontradas nas ruínas, principalmente por caçadores de relíquias e moradores da região, que já se comprometeram em fazer a doação ao acervo. ''Teremos também um espaço reservado à pesquisa, o que garante a continuidade do trabalho no sítio arqueológico'', assegura o professor da UEM, Lucio Tadeu Mota, pós-doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional do Rio de Janeiro, responsável pelas pesquisas históricas do projeto aprovado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
O professor Jorge Eremites, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, coordena o levantamento arqueológico na redução.
Mota explica que uma área deste sítio deve ser gramada para proteger as ruínas de uma igreja e outras edificações do cenário, como a casa dos padres, as moradias dos índios e uma olaria onde foram fabricados as telhas e os tijolos que construíram o esplendor da república teocrática.
''É preciso gramar a área para evitar erosão e que visitantes levem material arqueológico. O pessoal da região já levou muita coisa, inclusive urnas funerárias'', destaca Mota.
O projeto é abrangente e já envolveu a organização e a criação de um banco de dados sobre o acervo de mais de dois mil peças, que estão guardadas em uma sala da Secretaria Muncipal de Cultura e Turismo de Santo Inácio.
Os moradores do município também participaram de um curso de treinamento sobre patrimônio histórico para que possam conhecer e valorizar a história da região. ''Essa infra-estrutura que pretendemos ter nas ruínas será importante para Santo Inácio, que está integrado ao projeto Costa Rica. Queremos criar uma nova alternativa de renda para a cidade, incentivando o turismo. Se conseguirmos montar a infra-estrutura necessária no sítio arqueológico, estaremos abrindo para visitação, principalmente de estudantes'', projeta o prefeito de Santo Inácio, João Venceslau (PMDB).

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