Pesquisa constata avanço da Aids em cidades do interior
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de maio de 1997
Agência Estado 
RIO - A epidemia de Aids no Brasil está se deslocando para o interior do País. Essa é uma das conclusões de uma pesquisa feita pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que detectou o fenômeno da interiorização da doença no Brasil principalmente a partir dos anos 90. O estudo mostra que vem aumentando o número de municípios de pequeno e médio porte - principalmente os localizados nas periferias das grandes cidades - em que são registrados casos de pessoas infectadas com o HIV.
A pesquisa avalia a expansão da doença no Brasil de 1982 a 1994, a partir de dados fornecidos pelo Ministério da Saúde. O estudo mostra que o número de municípios com até 50 mil habitantes, em que foram notificados casos da doença, cresceu quase 19 vezes em 12 anos - no período de 1982 a 1986, havia portadores do HIV em 1,81% das cidades com esse contingente populacional, enquanto de 91 a 94 esse número cresceu para 33,06%.
Até meados da década de 80, a Aids havia chegado a 17,85% dos municípios que têm entre 50 mil e 200 mil habitantes. Em 94, o problema atingia 87,94% dessas cidades, o que representa um aumento de quase cinco vezes. Já entre as cidades com mais de meio milhão de habitantes, os índices se mantiveram inalterados, ou seja, todas elas registraram casos da doença a partir de 82. Se, na sua fase inicial, a epidemia revelava-se claramente restrita às metrópoles nacionais e regionais, ela se prolifera, ao final, ao longo do vasto território brasileiro, com as maiores taxas de expansão justamente nos municípios menores, constata o estudo.
O trabalho mostra ainda que a doença vem se alastrando com mais intensidade nos pequenos municípios do que nas grandes metrópoles, fenômeno que também é típico dos anos 90. Comparando-se os dados relativos aos períodos 87/90 e 91/94, verifica-se que nas cidades que têm até 50 mil habitantes a proporção de pessoas infectadas com o HIV cresceu quatro vezes - o número de portadores do vírus passou de 1,6 em cada 100 mil habitantes para 6,5 no mesmo universo de pessoas. Já nas cidades com mais de um milhão de moradores, essa taxa dobrou - passou de 41,1 casos em cada 100 mil pessoas para 83,9 dentro do mesmo universo de habitantes.
O epidemiologista Francisco Bastos, do Departamento de Informações para a Saúde (DIS) da Fiocruz, um dos responsáveis pela pesquisa, aponta dois problemas decorrentes da interiorização da Aids no Brasil. Fica mais difícil combater a Aids nesses municípios que, por serem menores, têm menos recursos, e são locais onde o preconceito em relação à doença é maior, afirma. Segundo ele, a pesquisa mostra que não há nenhuma barreira geográfica para a dispersão da doença. Ela tornou-se um fenômeno que atinge praticamente todo o território nacional.


