Pescadores temem a relocação das famílias
Os pescadores do bairro Bom Retiro, em Matinhos, temem que a desocupação das famílias seja uma desculpa para que o município construa e deprede o meio ambiente na orla. A comerciante Gilvânia Machado, mulher de um pescador que é filho do fundador do Mercado de Peixes, disse que a família nasceu e cresceu na orla. Não teria idéia de como seria viver de outro jeito. Ela e os filhos investiram na casa onde moram. Sair do local seria como morrer. Somos caiçaras, descendentes do povoado original de Matinhos. Querem agora tirar a gente na mão grande como se fôssemos invasores. Somos humildes e queremos ficar, disse ela.
No bairro, a vegetação rasteira é preservada. Não é raro ver animais próprios da praia e em extinção, por meio das flores pequenas que se formam. Na orla, poucos pontos contam com a vegetação de restinga (própria de praia) preservada. Meus filhos não conhecem outro lugar. Meu marido acorda todo dia às 6 da manhã e vai para o mar pescar. A gente salva vidas de afogamento sempre. Replantamos a mata ciliar, a restinga. Temos dunas. Catamos a lixarada dos veranistas. Nossas casas podem não ser belas, mas tentamos fazer nosso papel de deixar a orla preservada. Gilvânia apresentou à Folha um documento do dia 1º de setembro de 1990 que notificava a família Machado para cadastramento com vistas a titulação da área. Uma certidão do dia 13 de janeiro de 1988, do Departamento do Patrimônio Público (DPU), diz que a ocupação era de natureza urbana e dominial, ou seja, de direito pessoal e real.
O local era nosso há algum tempo, o que mudou agora? Se temos que sair, por que não nos indenizam?, questionou ela. Gilvânia lembrou que o local onde outros pescadores foram relocados virou ponto de drogas e bandidagem. É muito longe da praia. Inviabiliza o exercício da profissão. A comerciante está em depressão e teme a desocupação, a qualquer momento. Os ambientalistas se somam na luta de Giovânia. A coordenadora geral do Centro de Estudos, Defesa e Educação Ambiental (Cedea), Laura Jesus de Moura e Costa, disse que os pescadores são os que mais preservam a orla. A preocupação dela é com os edifícios e casas nobres construídas na praia principalmente nos balneários de Flamingo e Riviera. Para mim, as construções da classe média e alta é que estão prejudicando o curso da praia. O mar está impedido de fazer sua dinâmica natural. Não há preservação de restinga. Somos a favor da recuperação da orla. Mas sem especulação imobiliária. A briga, me parece, é pelo capital.
Laura diz que a praia é toda a área que sofre a ação da maré. Essa área não poderia ser ocupada. Praia tem que ser praia. Não pode se misturar com comércio, esporte e lazer, criticou, ao analisar os projetos que prevêem construções de quiosques. A gente gostaria que todas as edificações fossem retiradas da orla. O pedido de Laura já foi protocolado no Ministério Público (MP) federal e nos gabinetes dos governos federal e estadual.
O delegado Dinarte Antonio Vaz, da Delegacia do Patrimônio da União no Paraná, nega especulação financeira e garante que não irá deixar os pescadores desalojados. Ele pretende construir um novo local, como se fosse uma colônia, ao lado do Mercado de Peixe de Matinhos com um barracão onde os apetrechos de pesca e as embarcações possam ser guardadas. Os verdadeiros pescadores serão preservados. São dez famílias apenas. As demais serão retiradas e realocadas em áreas que ainda estão em estudo, afirmou. Dinarte disse que as desocupações deverão ser feitas em locais onde as construções comprometam o meio ambiente e sejam consideradas de uso público. Deverão ser retirados 200 imóveis da faixa litorânea (entre casas e quiosques). Onde fizemos retirada de comércio e famílias, a praia está melhor. Só em Matinhos, são 50 imóveis.(L.P.)





