Pés na terra e olhos no azul do céu
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de junho de 1997
Cláudio Osti 
Dona Carolina e o marido Pedro Arquilau conheceram de perto um turco que costumava dizer que para ser completo, o homem precisava ter os pés na terra e os olhos no azul do céu. Era a receita da felicidade. Dona Carolina e Pedro eram proprietários da Pensão Paulista, na Rua Mato Grosso, em 1934. Londrina nascia, no meio do perobal. Isolírio Correia de Oliveira, o primeiro gráfico da cidade, lembra que a pensão era o lugar de reuniões, onde compradores de terras e caixeiros-viajantes costumavam pernoitar. O Patrimônio Três Bocas era um eldorado.
O casal era também infeliz vizinho do terreno onde começava a ser construído o primeiro sobrado da localidade. O prédio, que só seria concluído em 1935, era do pioneiro Lupércio Luppi. O turco de quem falavam não era turco. Era libanês, muito culto. Era um vizinho que sabia o que estava falando sobre a felicidade. Chamava-se David Dequêch, falava idiomas.
Foi um ano de muita dor de cabeça. Os respingos de reboco do vizinho caíam no terreno da pensão, incomodavam os clientes. Carolina ficava indignada. Reclamava com os pedreiros, com o construtor e com o dono. Se houvesse bispo, também reclamaria. Mas o edifício, um gigante, seria apenas o primeiro.
Além da poeira vermelha, do barro e do som dos machados e das serras implacáveis que derrubavam perobas centenárias e abriam clareiras, Dona Carolina percebera que teria que conviver, também, com o som de outras obras, dos caminhões que não paravam de chegar carregados de gente em busca de trabalho, dinheiro e fortuna. Gente de fibra. Só o fato de chegar até o lugarejo já era uma prova de coragem.
A dona da Pensão Paulista - que existiu até os anos 50, quando Dona Carolina foi embora, segundo alguns relatos - percebera que o progresso vinha a galope e instigado ainda mais por aquele turco sonhador do David Dequêch, que tinha apeado no povoado havia três anos. Anos depois, o libanês construiría a primeira residência de alvenaria da cidade. Muito chic.
Sem saúvasEm 1931, David Dequêch havia comprado um terreno por 400 mil réis e, dois anos depois, instalara alí a primeira loja do Patrimônio Três Bocas, a Casa Central. A loja, que ficava na esquina das Avenida Paraná e Rua Heimtal (Av. Duque de Caxias), perto da Pensão Paulista, vendia gêneros alimentícios, roupas, ferramentas a armas para as tropas que naquele ano passavam pela região. Dequêch costumava dizer: Eu não vim para Londrina, ela é que veio depois que eu já estava aqui.
Os jornais de São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Santa Catarina publicavam propagandas do novo eldorado. Uma terra roxa, excelente para a agricultura e, principalmente, livre de saúvas. O efeito da propaganda fora imediato. A cidade crescia de modo alucinante e ao mesmo ritmo aumentavam as demandas por vias de acesso e comunicação - não existiam telefones ou telégrafos e o correio funcionava precariamente.
Em 1936, a Casa Central virou ponto de encontro e discussões sobre os rumos de Londrina e do Brasil. E não faltavam assuntos. A Europa estava na iminência da Segunda Grande Guerra, Lampião e Maria Bonita apavoravam o sertão do Nordeste, Carmem Miranda estrelava o filme Alô Alô Carnaval, o gaúcho Getúlio Vargas preparava terreno para o golpe que criou o Estado Novo, e o primeiro prefeito eleito do município, Willie da Fonseca Brabazon Davids, abria ruas tentando uma infra-estrutura mínima para Londrina. Neste clima, o pioneiro David Dequêch percebeu que já era tempo de se criar uma associação lutasse por melhorias.
E foi em 5 de junho de 1937, quando a cidade tinha 1.441 casas e já contava com uma agência bancária - a Caixa Econômica Federal, instalada em 1936, foi a primeira estatal - que 19 empresários, liderados por David Dequêch, numa reunião no Líder Clube, concretizaram a criação da Associação Comercial de Londrina. Naquele dia, Dona Carolina Arquilau teve certeza de que a cidade nunca mais seria a mesma.


