Perseverança e prosperidade nos negócios
PUBLICAÇÃO
domingo, 17 de junho de 2018
Amanda de Santa<br>Especial para a FOLHA 

Os filhos e netos da primeira geração de japoneses que chegou ao Brasil puderam conviver e aprender muito da filosofia, costumes e cultura do povo oriental. As lições de honestidade, trabalho em equipe, responsabilidade, respeito ao próximo, perseverança foram repassadas por pais e avós, que fizeram questão de investir na boa educação dos seus descendentes. Os japoneses acreditavam que essa era a única alternativa para que os filhos conseguissem se integrar e ascender socialmente no novo país. E eles estavam certos.
A disciplina e dedicação aos estudos renderam muitas conquistas profissionais. Os orientais marcam presença nas universidades brasileiras e colhem bons resultados nas profissões que exercem. Possuem muita afinidade com as ciências exatas, e também se destacam na medicina, odontologia, veterinária, agronomia. Em geral, estão acima da média tanto no aspecto intelectual como financeiro. Muito desse sucesso deve-se aos valores e ensinamentos japoneses preservados geração após geração.
O engenheiro civil e presidente do Conselho Administrativo do Grupo A. Yoshii, Atsushi Yoshii, decidiu empreender assim que saiu da faculdade. "Eu comecei do zero. O único capital que eu tinha era o intelectual", lembra. Ele conta que levou os ensinamentos dos pais, nascidos no Japão, para a vida particular e os negócios. A honestidade, o compromisso com o trabalho, em fazê-lo bem feito e dentro do prazo são algumas das lições que contribuíram para a construção de um legado de credibilidade.
"É importante que a segunda e terceira gerações deem continuidade a essa filosofia", opina. Yoshii iniciou a carreira profissional de forma autônoma em 1965. Adotou como estratégia a escalabilidade das obras para alavancar a empresa, que até hoje leva o seu nome. "Trabalhava com parceiros como a Caixa, financiava e, em vez de fazer uma casa, erguia 10", explica. No início, realizou muitas obras comerciais, industriais e educacionais. Já construiu bancos, cooperativas, teatros, lojas, silos, indústrias, usinas, torres residenciais e comerciais.
Yoshii diz ter enfrentado, ao longo desses 53 anos de trabalho, muitos desafios governamentais, financeiros e econômicos, porém, procurou se pautar numa vida profissional transparente, baseada na dignificação humana. "Engenharia não é só cimento, pedra, ferro. Engenharia é gente. Temos que ter bons parceiros e fornecedores, trabalhar com pessoas que compartilham da nossa filosofia. O dinheiro é importante, mas não é tudo", argumenta. O sucesso financeiro é resultado do trabalho bem feito, segundo ele.
Hoje, a empresa que ele fundou, A.Yoshii Engenharia, está presente em cinco cidades brasileiras e emprega cerca de 3 mil colaboradores. "Que bom que conseguimos construir uma galinha que bota ovos de ouro", comemora. O fundador divide a responsabilidade do sucesso com os colaboradores. Para o empresário, não basta ter lucratividade, é preciso desenvolver as pessoas. "A empresa não é só minha, é de todos. Por isso, temos que cuidar bem dela, é um legado que temos que deixar", enfatiza. Quando o negócio completou 50 anos, Yoshii iniciou o processo de sucessão da gestão para o filho, Leonardo Yoshii, atual presidente do grupo.

DISCIPLINA ORIENTAL NA CONFEITARIA
Nascido em Assaí, filho de agricultores, o empresário Nilo Kato chegou a Londrina aos 16 anos para estudar. Após tentativas frustradas de entrar em um curso de direito, passou no vestibular para administração. Porém, decidiu trancar a faculdade e aproveitar a "onda dekassegui", na década de 1990, e tentar a vida no Japão. A ideia inicial era "fazer um pé de meia" e retornar após três anos. Porém, ficou 15 anos fora do Brasil. Casou-se e teve um filho por lá.
Kato lembra que sempre sonhou em ter o próprio negócio, mas não sabia em qual área empreender. Quando retornou ao Brasil começou a trabalhar em uma borracharia, mas o dinheiro era pouco, não dava para sobreviver. Foi então que a esposa, Suely Kato, que frequentou uma escola de gastronomia no Japão, começou a fazer doces em casa, sob encomenda. Ela encontrou no hobby uma opção de renda. A confeitaria inspirou o casal a abrir um negócio próprio em 2005.
"Começamos de forma despretensiosa. A ideia era ter uma renda para o sustento da família", lembra. O espaço, alugado na Avenida JK para a primeira loja da Hachimitsu em Londrina, comportava apenas cinco clientes por vez. Passaram-se sete meses até o negócio começar a dar lucro. No início, eles fabricavam entre 10 a 12 itens. Produziam de manhã para vender à tarde. Depois de um ano, o casal conseguiu fazer a primeira ampliação e a capacidade de atendimento aumentou para 22 pessoas.
Em 2011, os empreendedores iniciaram a construção da sede própria, no Jardim Bela Suíça. Foram 20 meses de obra. A inauguração ocorreu em 2013. A nova loja tem espaço para 100 lugares e arquitetura diferenciada. "Foi um passo muito grande, que deu certo. A partir daí, começamos a expansão para outros pontos", conta Kato. Hoje, a Hachimitsu possui seis lojas, emprega 130 pessoas e comercializa cerca de 400 produtos. O casal administra a matriz e a unidade da Alameda Jardino, na Gleba Palhano. Os outros pontos de venda foram franqueados para amigos.
Humildade, disciplina, trabalho em equipe, entusiasmo, persistência, comprometimento, paciência, na avaliação de Kato, são os valores aprendidos com os japoneses que contribuíram para o sucesso da família nos negócios. "Se eu não tivesse vivido no Japão, visto as dificuldades enfrentadas pelos meus pais, não sei se aguentaria trabalhar por tantas horas seguidas e com as contas no vermelho", confessa. As receitas francesas com toque oriental e brasileiro, como ele mesmo descreve, caíram no gosto do londrinense e, em breve, devem chegar a outras cidades. "Estamos terminando de construir a nossa central de produção para expandir o negócio", adianta.
RESPEITO AOS QUE TRABALHAM
Da segunda geração por parte de mãe e da terceira por parte de pai, o empresário Fabio Kai decidiu conhecer o país de origem da família aos 20 anos. Trabalhou durante 12 anos no Japão, mas confessa que enfrentou dificuldades. "Os japoneses respeitam quem trabalha e dá resultado. Em contrapartida, existe discriminação com aqueles que não pertencem a um grupo. Por mais que eu fizesse e demonstrasse que era capaz, não era parte do grupo, eu era um estrangeiro para eles", explica. Por isso, decidiu retornar ao Brasil. Queria abrir o próprio negócio, mas ainda não sabia em quê investir.
Trabalhou durante três anos como representante comercial e, nesse período, observou o mercado. Depois de ser assaltado quatro vezes em São Paulo, mudou-se para Londrina e logo soube de uma loja de cosméticos que estava à venda no centro da cidade. Enviou uma proposta e comprou o negócio. "Usei todas as minhas economias e ainda fiquei devendo. Demorou três anos e meio para pagar tudo", lembra. Na época, a Leo Cosméticos funcionava em um espaço pequeno e tinha seis funcionários.
Mesmo sem capital de giro, o empresário comprava mercadorias toda semana. Nos primeiros seis meses, dobrou o faturamento, e o negócio só cresceu. Seis anos após a aquisição, Kai entendeu que precisava de mais espaço e decidiu reformar o estacionamento localizado em frente ao primeiro endereço. "Sempre acreditei que a produtividade e o trabalho geram respeito. Trouxe isso do Japão", conta. Com a ampliação, passou a empregar 40 funcionários. Mas, não parou por aí, chegou, também, a outras cidades do Paraná. Hoje, já são 12 lojas e 320 colaboradores. Para Kai, o segredo é o foco em resultado.


