PERFIL Um poeta em 'estado de garça'
PUBLICAÇÃO
domingo, 21 de outubro de 2007
Donizete Oliveira<br>Especial para a FOLHA 
Paciência combina com jornalismo. Entrevistar Manoel de Barros sempre foi um dos meus propósitos. Por cerca de um ano, tentei agendar a entrevista. No primeiro contato, ele avisou: ''Só dou entrevista por escrito''. Enviei as perguntas pelo Correio, mas ele não respondeu. Depois da morte de seu filho, João Wenceslau Leite de Barros, 50, num acidente de avião em 31 de março passado, o poeta, que completa 91 anos em dezembro, ficou mais recluso.
Tentei, por várias vezes, marcar um encontro com ele na sua casa em Campo Grande. Até que deu certo. Surdo de um ouvido, Manoel tem dificuldade em falar ao telefone. Disse apenas um breve ''pode vir que te recebo'' sem marcar data. Tomei o ônibus em Maringá no último dia 9 de setembro. Cheguei a Campo Grande pela manhã. Os termômetros registravam quase 40 graus.
Mesa abarrotada
Toquei a campainha de sua residência em um bairro nobre da capital do Mato Grosso do Sul. Um dos seus netos abriu o portão e anunciou: ''Vovô, sua visita chegou!''. Um senhor de estatura mediana e óculos pesados veio sorrindo ao meu encontro. ''Vamos entrar, podemos conversar aqui na sala, está muito quente'', diz. Sentamo-nos em poltronas da casa rústica e espaçosa.
Uma escada leva ao escritório do poeta, cuja mesa, segundo ele, está abarrotada de papéis. ''Depois que perdi meu filho dei uma parada com esse negócio de poesia'', lamenta-se. ''Lá (na mesa de trabalho) tem tanta correspondência que eu já não sei o que é meu e o que é dos outros. Agora, que estou começando a voltar à realidade. Foi um baque tremendo, mas não tem mais conserto''.
Gravador? Ele detesta. Bloquinho de anotação, desses que jornalistas usam nas entrevistas? Incomodam-no. Câmera de televisão nem se fala. ''Tenho vergonha, é meu jeito'', afirma o poeta.
Para justificar a recusa a entrevistas um dos seus ditos cai como luva: ''Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia''. E poesia de primeira grandeza. Para muitos críticos, Manoel é o maior poeta brasileiro vivo. Título que ele não ostenta nem despreza. ''Por pudor, sou impuro'', brinca, recorrendo a mais uma de suas manobras linguísticas.
Os jornais encarregam-se de adjetivá-lo: ''O Guimarães Rosa da Poesia'', ''O poeta por Natureza'', ''O Poeta do Pantanal''. Mas seus versos rompem os rótulos, a exemplo do autor de ''Grande Sertão: Veredas'', de quem foi guia no Pantanal. É, certa vez, Rosa apareceu por lá. Trocaram idéias sobre palavras, sapos, borboletas e passarinho. O encontro deu-se na fazenda do poeta na região de Nhecolândia, uma das mais belas do Pantanal.
Homem viajado
Manoel diz que lá (na fazenda) vive abençoado a garças, o quê, talvez, lhe deixe em estado de graça (ou de garça) para fazer versos. Mas ele não é sujeito limitado ao Pantanal. É homem viajado, de cultura sólida. Nasceu em Cuiabá. Morou na Bolívia, no Peru, nos EUA - em Nova York - e, por 40 anos, no Rio de Janeiro, onde se casou e formou-se em Direito. Leitor de Rimbaud, Bachelard, Virgilio, Homero e Padre Vieira, ouvinte de Brahms, Bach e Beethoven.
Com 18 livros de poesia, dois infantis e um de prosa, é um dos poetas mais premiados do país com Jabuti, Nestlé e Associação Paulista dos Críticos de Arte. Manoel considera-se vagabundo. Isso mesmo. Para ele, fazer poesia é vadiagem. Coisa de quem não se espanta com o correr da vida. ''Andando devagar eu atraso o final do dia'', escreve ele na contracapa de um de seus livros.
E, devagar, ele volta à rotina. De dormir com as galinhas e acordar com o canto dos sabiás, por volta das 6 horas. Pela manhã, toma guaraná em pó e no almoço um copinho de cachaça. De vez em quando a substitui por uma pequena dose de uísque. Costuma assistir à novela das oito. É assim que ele se refere à atração. Mas pára por aí, pois se diz avesso à televisão, à internet e a toda tecnologia. ''Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar'', ensina.
Relação íntima
A sua relação com a palavra é íntima, questão de tara mesmo. ''As minhocas arejam a terra e eu, a linguagem'', afirma, revelando sua fascinação pelo primitivo. ''Tenho a natureza inteira dentro de mim, mas meus versos, às vezes, ressoam tristes''. ''O povo de fora que chega aqui no Pantanal não sabe lidar com a terra e agride a mata, os bichos, os rios'', reclama. ''Aí, tudo pode acabar, inclusive, o homem pantaneiro, que está virando uma espécie em extinção''.
Ele explica que o Pantanal quase teve um dialeto. Por muitos anos, os moradores ficaram isolados. Palavras sofriam erosões morfológicas ou semânticas. Outras eram criadas. E algumas sumiam por serem da cidade. ''Aqui se mata uma capivara para comer e se tira a misca. Uma catinga, um cheiro forte que vem do lombo do bicho'', conta. ''Sim, vem de almíscar, que sofreu uma erosão nas duas margens e virou misca''.
Depois de uma hora de bate-papo, nos despedimos. Conversar com Manoel é mais do que um privilégio. Educa o ouvido. Suas palavras ecoam, ganham vida e formam versos que saltitam feitos sapos; às vezes, batem asas como borboletas pela planície pantaneira. Basta imaginar.
Um poema de Manoel de Barros
Desejar Ser
Nasci para administrar o à-toa
o em vão
o inútil.
Pertenço de fazer imagens.
Opero por semelhanças.
Retiro semelhanças de pessoas com árvores
de pessoas com rãs
de pessoas com pedras
etc, etc.
Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal.
(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã no talo).
E quando esteja apropriado para pedra, terei também sabedoria mineral.
Manoel de Barros: Livro Sobre Nada, Editora Record, 3 edição, Rio de Janeiro, 1996


