Perfil espiritual da cidade pede fé e igrejas recomendam ''chama acesa''
ANO 2000
Perfil espiritual da cidade pede fé
e igrejas recomendam chama acesa
fotos: Arquivo Folha
Walter Ogama
De Londrina
Fé e esperança. São duas palavras que aparecem constantemente de norte a sul do País, quando o assunto é uma previsão para o ano 2000. Londrina, nas comemorações dos seus 65 anos, não foge à regra. Cartas, búzios, números e astros trabalham com algumas possibilidades assustadoras, mas amenizam o temor dos que planejam para o amanhã com base em suas previsões com o uso enfático destas palavras.
As igrejas Católica e Evangélica, por outro lado, colocam como sustentáculo de seus planejamentos e pregações a fé e a esperança como sentimentos vitais para que o ser humano possa entrar no ano 2000 transportando uma aura de otimismo e espírito de luta. Recomendações para que os fiéis mantenham acesa a chama que faz o homem prosseguir, com os pés e o coração baseados na espiritualidade, é o que se ouve.
Mas, para as igrejas, a busca de justiça social, segurança, dignidade nas relações humanas e principalmente na vida política da cidade passaram a ter importância fundamental nos cultos e missas. Volta-se, depois de alguns anos, a um passado que glorificou sobretudo os católicos como um dos estandartes das lutas sociais, como se vê atualmente em Londrina.
Este retorno às bases, na atualidade, tem a ativa participação dos evangélicos, que ocupam com seus templos um lugar de destaque na vida comunitária londrinense, na medida em que avançam para as localidades mais distantes, para onde vão os desprovidos de condições dignas de vida. São nesses locais que a fé e a esperança costuma estar minadas.
É neste contexto que o padre da Paróquia Santa Cruz, do Conjunto Luís de Sá, na zona norte de Londrina, Jorge Pereira de Melo, encara o futuro da cidade. Designado pelo arcebispo D. Albano Cavallin para apresentar a posição da Igreja Católica sobre o futuro de Londrina, padre Jorge participa com uma postura crítica e incisiva, sobretudo em relação aos acontecimentos políticos que estabelecem na cidade um clima de temor e dúvidas relacionados às denúncias de irregularidades nos órgãos públicos municipais.
Mas, esperançoso, ele prega a necessidade da prática da fé. A partir da fé que temos no plano de Deus podemos esperar por dias melhores para Londrina, resume. Uma fé, porém, que não pode fluir sozinha, conforme orienta. Ela deve funcionar como uma alavanca para impulsionar atitudes nos cidadãos. Crer e orar são atos que dão forças, inclusive para que os fiéis tenham uma participação efetiva na vida comunitária.
Ou seja, conforme o padre Jorge, a fé deve levar o católico a um engajamento e a uma articulação. A sociedade organizada deve, inclusive, acompanhar bem de perto e com muita atenção as investigações que são feitas no Ministério Público e nas comissões especiais de inquérito (CEIs) para apurar se há irregularidade na administração pública. Só com esse engajamento e essa articulação será possível chegar aos culpados por essas irregularidades, afirma.
Segundo padre Jorge, o retorno do dinheiro que pode ter sido desviado deve voltar aos órgãos públicos, para ser aplicado em programas ou obras que beneficiem toda a sociedade londrinense, contemplando principalmente aquela fatia da população mais necessitada.
Ainda vinculando a espiritualidade dos católicos à questão política e social do município, o pároco do Conjunto Luís de Sá enfatiza que Londrina poderá ingressar no ano 2000 com uma perspectiva otimista desde que solucione alguns problemas evidentes. O dinheiro público, conforme diz, deve ser aplicado na promoção humana, com destaque para a área de educação e recuperação de jovens infratores e dependentes de drogas.
Recuperar esses jovens trará um grande benefício para toda a sociedade, afirma. Ele explica que o investimento nesse segmento representa retorno para todos os outros segmentos da sociedade, com a possibilidade de diminuição da violência e da pobreza. Mas quando menciona a articulação e o engajamento, padre Jorge ressalta que esse tipo de ação precisa ocorrer de forma ordeira e séria. Nesse sentido tenho a esperança de que Londrina terá um futuro melhor e mais justo para todos.
Quanto à posição da Igreja Católica para a Londrina do ano 2000, padre Jorge resume: A Igreja que Jesus quer deve estar cada vez mais presente nos bolsões de miséria, junto às populações mais carentes. A Igreja deve levar a essas comunidade o seu apoio, para que elas encontrem alternativar de solução de seus problemas. É uma grande esperança que eu tenho.
Também crítico e da mesma forma esperançoso, o presidente do Conselho de Pastores Evangélicos de Londrina, pastor Lucimar Manoel Vieira, afirma que apesar de todas as dificuldades que boa parte da população londrinense está enfrentando, e apesar de todas as formas de violência praticadas contra a humanidade. inclusive nas questões essencialmente políticas, Deus ama o ser humano e o retorno a esse sentimento superior trará Boas respostas para a população da cidade. Confiamos em Deus, enfatiza pastor Lucimar.
Segundo ele, o ano 2000 será de um expressivo crescimento nas igrejas, inclusive em Londrina. Haverá a busca de Deus, porque as pessoas estão sedentas de Deus. O místico, até por causa da aproximação da virada do século, ganhará importância na vida das pessoas. Apesar de toda a tecnologia disponível, o ser humano ainda carece de Deus.
A exemplo de seu colega católico, pastor Lucimar também vincula a espiritualidade do londrinense a uma tomada de consciência em relação às coisas da vida política do município. Que Deus oriente toda a população de Londrina neste ano eleitoral que se aproxima. Que o londrinense, através da orientação superior, vote com muita consciência e com muita qualidade, prega o pastor.
A política aparece também de maneira forte no tarô, na numerologia, nos búzios e no mapa astral de Salete Lanre Martins, 37 anos, trinta deles trabalhando com previsões. Eu comecei com 7 anos de idade, esclarece.
Salete, que se apresenta em anúncios classificados com o nome de Mãe Iemanjá, atendeu a Folha pelo telefone (43) 912-8902, interrompendo dezenas de ligações de pessoas que telefonavam para agendar consultas.
Ela está há oito anos em Londrina e respondeu às perguntas da reportagem consultando os búzios. Começou com as previsões sobre o futuro da política em Londrina. Podemos ter melhora se aparecerem novos políticos. Sobre os atuais mandatários da administração municipal, Mãe Iemanjá respondeu que há um lado do grupo enfrentando muitas dificuldades e consequente enfraquecimento.
Mas, ressaltou Mãe Iemanjá, o lado humano do atual prefeito de Londrina, Antonio Belinati (PFL), principalmente em relação ao atendimento das crianças e dos idosos, é fundamental para a cidade. De acordo com os búzios, novos políticos surgirão. São pessoas boas e humildes, disse. Mas ainda não haverá, segundo Mãe Iemanjá, algum político que consiga alterar o atual quadro político da cidade. Ou seja, a situação se manterá no poder, apesar de tendências indicando para um enfrequecimento do grupo. É preciso ficar claro que não conheço o prefeito Antonio Belinati e não tenho algum parente ou conhecido trabalhando na administração municipal. Quero que fique claro também que não estou falado isso como uma eleitora, mas através dos búzios.
Poderá haver, no entanto, outro tipo de perda, segundo os búzios de Mãe Iemanjá. Vamos perder dois políticos famosos. Um por acidente aéreo e outro por traição, resume, sem dar mais detalhes. As perdas também se apresentarão fortes no segmento do comércio, que sofrerá queda no período de março a agosto de 2000. Será, de acordo com Mãe Iemanjá, um período de crescimento do desemprego.
No aspecto místico, Mãe Iemanjá adverte que a maior procura por parte dos londrinenses de pessoas que atuam nesse segmento vai desencadear no surgimento de gente de má fé. Um problema que, segundo Mãe Iemanjá admite, já é constante em Londrina. As pessoas já estão muito descrentes em relação a esse aspecto espiritual, justamente por causa das pessoas de má fé.
Leigo e sem a capacidade das vidências e das previsões, o andarilho Valdo não tem nome completo e nem idade certa. Também não sabe de onde veio e quem foram os seus pais. Muito menos lembra de irmãos. O futuro dele, conformou demonstrou, não é o ano 2000. Valdo pensa no agora, enquanto caminha lentamente por uma rua movimentada, e na próxima pessoa que passará por ele: Tem um trocadinho para tomar um café?
Diferente da balconista Andréa, que acabou de concluir o terceiro ano do 2º grau, mas não presta vestibular em janeiro de 2000. Ela não faz previsões e não tem o dom da vidência, mas planeja e tem objetivos. Ele pretende estudar psicologia, mas entende que precisa fazer um bom cursinho pré-vestibular para conseguir uma vaga na Universidade Estadual de Londrina. Andréa tem 18 anos, é evangélica e tem fé. Se depender de fé Londrina vai melhorar muito no ano que vem. Porque eu tenho fé e rezo por isso. Sobre político não gosto muito de falar, mas o desemprego me assusta. Acho que vamos ter empregos no ano que vem, afirma.





