Perdidos na selva
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 19 de junho de 1997
Fabiano Camargo 
Arquivo PessoalResgates em regiões de montanha sempre exigem muito trabalho e técnica. Com frequência, muitos alpinistas têm que deixar o esporte de lado para ajudar a salvar vidas (Anhangava, 1982)Belas paisagens e a chance de mergulhar na natureza atraem cada vez mais pessoas para passeios, caminhadas e escaladas em regiões como o complexo do Anhangava e o parque do Marumbi, na Serra do Mar. Mas o despreparo para enfrentar a selva e as montanhas, em alguns casos, pode transformar o lazer em perigo e desespero. Perder-se no mato, sem equipamentos para sobrevivência, e, pior, sem saber onde está o caminho de saída, é uma experiência traumática que pode acabar em acidentes graves.
O último caso que teve destaque foi o de um grupo de estudantes adolescentes, há dois meses, que passou uma noite sem rumo no Anhangava. Casos mais sérios já foram registrados, como a da morte de uma pessoa nas montanhas do Parque Marumbi, onde fica o pico de mesmo nome. Perdido, um jovem estudante tentou achar o caminho de volta durante a noite e acabou caindo num abismo. Estas ocorrências acontecem com uma frequência que comprova a falta de informação e preparo de boa parte das pessoas que se aventuram nestes locais. Apesar de entidades como o IAP - Instituto Ambiental do Paraná - e Polícia Florestal atuarem nas regiões mais visitadas, muita gente ainda faz a opção perigosa de se aventurar com pouca ou nenhuma instrução sobre os locais.
Praticamente todo o final de semana acontece algum problema, conta o guia de montanhismo Francisco Cruz Neto, 33 anos e 12 de montanha. São pessoas que querem aventura mas não sabem como buscá-la com segurança, conta Cruz Neto. Os casos mais comuns são de jovens que se perdem e passam a noite sem equipamento nenhum. Segundo ele, que já participou de muitos salvamentos, uma boa dose de informação pode resultar numa grande enconomia de incomodos. Esta é a principal dica queele costuma transmitir (leia mais no texto ao lado).
As ocorrências constantes motivaram a formação de um corpo de resgate voluntário que atua nas montanhas e florestas do Parque Marumbi - local onde as trilhas se confundem e a selva costuma avançar sobre os caminhos. O grupo Cosmo, fundado há dois anos, atua mantendo um plantão permanente na região e também ministra cursos que formam especialista no salvamento na selva e na montanha. Tudo nasceu da reunião de alguns montanhistas que há tempo já vinha atuando em resgates. Com a fundação do Cosmo, nos organizamos para fazer um trabalho mais intensivo e organizado, conta um dos diretores, Irivan Gustavo Burda, 26 anos. Transportes de feridos com a utilização de cordas e a confecção de macas fazem parte das especialidades do grupo. Estas técnicas são extremament úteis, por exemplo, no caso de alguém cair e se machucar em locais de difícil acesso.
Arquivo FolhaO Parque Marumbi, onde fica o conjunto de montanhas de mesmo nome, é um dos locais onde a falta de preparo dos frequentadores pode resultar em situações de risco
Além dos grupos especializados, alpinistas e frequentadores do Anhangava mais experientes já estão acostumados a ajudar pessoas que se metem em encrencas no mato. O praticante de alpinismo Danilo Tozo, 31 anos, já participou de vários resgates. Um acidente com um piloto de asa delta no Anhangava, em 1982, foi responsável por um dos salvamentos mais difíceis daquela montanha, como lembra Tozo.
Ele perdeu o controle logo que decolou, devido a uma corrente de ar, e caiu próximo ao ponto de onde decolara. O impacto foi muito forte: teve um fratura exposta no joelho e desmaiou, lembra Tozo. Tive que descer até um ponto onde um pessoal estava escalando para pedir ajuda. Ao todo, estávamos em seis pessoas. Arrancamos um portão de aço de uma capela abandonada que existe lá em cima e com ele improvisamos uma maca. A descida foi uma prova de resistência: o portão pesava uns 100 quilos e o acidentado aproximadamente o mesmo. O percurso já era complicado sem nenhuma carga. Levamos mais de seis horas para descer. O esforço valeu a pena. O acidentado conseguiu se recuperar.


