A pluralidade e a diversidade de novas seitas, igrejas ou religiões que têm surgido a cada dia no Brasil e no mundo, não são uma novidade para a professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e doutora em Antropologia Social pela USP, Elena Maria Andrei. Segundo ela, países desenvolvidos como a Inglaterra e os Estados Unidos, possuem variantes ainda mais ''loucas'', do que aqui no Brasil.
''Normalmente, o surgimento das novas religiões é um marco dos tempos de crise. A alta Idade Média, por exemplo, se encontra inserida nesse fenômeno porque se encontrava no final da época medieval e início de uma nova civilização. Atualmente, com a globalização, estamos vivenciando um dos maiores períodos da fragmentação da história humana'', diz a antropóloga.
Elena explica que a globalização coloca o ser humano diante de um desafio único, que é a planetarização. Um dos primeiros momentos em que isto ocorreu, segundo a antropóloga, foi durante a Guerra do Vietnã, quando as imagens da guerra puderam ser vistas por pessoas do mundo inteiro.
''A guerra entrou na nossa sala de jantar. Isso é uma experiência inédita. A planetarização é isso, o que acontece num lugar afeta todo o mundo. O resultado disto tudo é a perda de sentido e as pessoas não sabem mais onde estão, quem são, nem o que querem'', salienta.
A antropóloga cita algumas religiões criadas pelo homem que busca suprir a carência adquirida por meio desse momento de crise. Uma religião que teve sua raiz no Ku Klu Klan, por exemplo o Odismo, do Deus Odin surgiu nos Estados Unidos e acredita que só os brancos podem ser cristãos.
''Existe também nos Estados Unidos, religiões que misturam o Cristianismo com Xamanismo indígena, em que a serpente não é uma representividade do demônio, mas sim o próprio Cristo. Núcleos de religiões que existem há anos, tiveram como base o filme Star Wars (Guerra nas Estrelas). Há também na Inglaterra, religiões que surgiram a partir do filme Senhor dos Anéis'', comenta.
Para a antropóloga, no Brasil a pluralidade das religiões é ainda menos absurda em comparação com as religiões que surgem em países como os Estados Unidos, por exemplo. ''Na maioria dos casos'', diz ela, ''as igrejas novas que surgem no País, acabam sendo criadas depois que o membro de uma igreja discorda das idéias de pastor''.
''Muito mais do que as novas religiões que tem uma sala física, existem também vertentes religiosas que não tem endereço. Tudo isso por causa dessa fragmentação que marca o século XXI ou a pós-modernidade. A perda dos valores, dos paradigmas, as fontes da regra do jogo explodiram'', salienta.
Segundo Elena, novas religiões acabam surgindo com mais facilidade ainda, em países do Terceiro Mundo, localizados principalmente na América Latina, África do Sul, além de alguns países da direita norte-americana. ''As pessoas perdem sua voz e acabam tentando se encontrar numa ficção cósmica, por meio da religião ou numa ficção real, por meio da tevê e das novelas. Tem até um antropólogo que diz que essas pessoas não conseguem falar com a polícia, com o médico, nem com o advogado, por isso acabam indo falar com Deus'', finaliza.(F.B.)

mockup