De olhos fechados
As pequenas e grandes tragédias em Pinhão representam um latifúndio de injustiça e violência, a formar mapa constrangedor da situação agrária no Brasil. O isolamento das famílias na região de difícil acesso encobre relatos que não estão nas estatísticas dos conflitos no campo. Uma história como a de Madalena (nome fictício), por exemplo. Trinta anos, cinco filhos menores, pouca escolaridade forçam-na a fechar os olhos para a violação dos direitos, que vão além da falta de uma escola perto de sua propriedade de 11 alqueires ou de assistência médica.''Quando um filho fica doente, a gente procura fazer um remedinho mesmo assim de casa. Quando apura, a gente paga para alguém levar. Se chove ou se o problema é à noite, a criança perece, né?'', conforma-se. ''Ela ali é minha mãe'', aponta para uma mulher deficiente mental, e surpreende a reportagem ao acrescentar: ''Meu pai, eu não conheço. Minha avó deixou a minha mãe sozinha e aí aconteceu isso'', comenta Madalena sobre o estupro de sua mãe, atualmente com 49 anos, do qual foi o fruto. Um caso que, como tantos outros na região, não mereceu investigação policial.

Violência marcada a fogo
Um dos casos mais trágicos registrados na região é o da pequena Janaína dos Santos Freitas, de 2 anos, que morreu carbonizada durante um incêndio em modesta casa de madeira, na Serra da Cabra. Seu pai, Hildebrando Domingues de Freitas, foi um dos organizadores do movimento dos posseiros de Pinhão na década de 80. ''Eu e minha esposa estávamos trabalhando na roça'', conta, ''e a filha ficou sozinha em casa. Era uma 'distancinha' só, mas, quando vimos, o fogo já tinha tomado conta de tudo e as paredes estavam ardendo. Muitos homens vieram ajudar a socorrer, mas o que eu tinha para socorrer não puderam''.
Seo Hildebrando acredita que o incêndio teve ligação com o conflito pela posse da terra. ''Não havia fogo, querosene, nem fósforo na casa e o vizinho que chegou primeiro contou que não tinha fogo na cozinha, mas o quarto - onde Janaína dormia - já estava inteiro queimado. Não tem fundamento''.
Menos de 45 dias após a morte de Janaína, o inquérito foi arquivado sem que a causa do incêndio tivesse sido apurada.
(F.C.)

Convite para invadir
Envolvimento em atividades ilícitas pode ser um subproduto do latifúndio de miséria, onde vivem alguns posseiros assentados numa área que consideram improdutiva. O nordestino José (nome fictício), 42 anos, diz que resolveu entrar ''na área das posses'' há sete anos, depois de um convite. ''Sempre bastante gente faz convite para entrar nas posses. São posseiros, pessoas sem-terra. Às vezes, descobrem lá uma propriedade, que há muitos anos não paga imposto e o fazendeiro não tem ocupação para aquela terra. Aí o pessoal diz: mas nós estamos precisando de terra, vamos lá, vamos entrar lá, entendeu?''
Com R$ 5 mil, José comprou 3 alqueires, onde mora com a mulher e quatro filhos, mas antes já havia ocupado outra área na região. ''Cheguei aqui para trabalhar, plantando milho, feijão. Plantei também, no primeiro lote, um pouco de pasto, mas já passei a terra para outro porque eu sabia que, na hora de uma medição do Incra, só tiro um lote e não dois. Aí eu fiquei aqui por causa da criança ir pra escola''. Ele conta que conseguiu R$ 2 mil do Pronaf, mas que gastou o dinheiro para pagar os custos com uma doença, que o deixou praticamente cego de um olho. ''O dia em que o banco aparecer aqui, eu chamo pra nós fazermos negociação e, se não aparecer, o que eu vou fazer? A gente sobrevive de fazer carvão, que é contra a lei. O Ibama não quer que a gente trabalhe porque desmata. A gente faz tudo para trabalhar em condições, mas sempre trabalha irregular. Não tem jeito'', destaca José, acrescentando que os posseiros insistem na atividade, com o carvão ou com vasos de xaxim, ''que toda vida foi proibido'', enfrentando o risco de serem surpreendidos pela fiscalização.

Sem título ou esperança
''Eu pelei essa serra tudo'', lembra Olímpio Martins, 68 anos de idade, demarcando em seus 5 alqueires de terra, ocupados há 7 anos, os limites de um sonho que começou com o trabalho na madeireira, derrubando árvores nativas e que, hoje, o deixa isolado. O telefone público mais próximo está a cerca de 20 quilômetros. Luz, só a da vela. No mais, o cheiro de comida preparada no fogão de lenha e as péssimas condições em que vive. Na panela de Martins, o arroz e o feijão, tirados da roça de subsistência dos faxinais, alimentam suas esperanças para a velhice. ''Vivo aqui na fé de Deus. Não fiz nenhum cadastro. Trabalhei nove anos para fazendeiros da região, derrubando mato, mas não ganhei um pedaço de terra desse. Eles não se interessaram nem em me aposentar, me deixando ficar aqui'', ressalta o matuto, nascido e criado na região, legitimando, simplesmente com o trabalho de uma vida toda, a ocupação da área e que, como outros, não possuem título do lote.

Sonhos à luz de velas
Eroni de Araújo Macedo, 51 anos, segue nessa toada, representando ainda a exploração da posse que, sucessivamente, passa de uma mão para outra, sem a emissão do título. ''Há 10 anos estou nesta terra. Aqui foi comprado o direito de um prefeito falecido, que tinha dado o lote para um camarada. Aí o homem veio morar aqui e não acostumou. Daí vendeu para nós o direito. Pagamos R$ 2 mil. O camarada não gostou daqui por causa de ser fraquinha a terra. Eu sei que o prefeito já tinha comprado o lote de outra pessoa'', afirma Eroni.
Morando no alto da serra, em que mais de 1.000 famílias vivem isoladas de serviços básicos de saúde e educação, Eroni toca sozinha sua roça, como fazem muitas outras mulheres da região, enquanto os maridos saem para ganhar R$ 15,00 por dia na indústria madeireira local. A pouca produção sai da roça no lombo de cavalo. Eroni financiou R$ 3 mil, por meio do Pronaf - programa do governo federal de apoio à agricultura familiar -, aplicando o dinheiro na compra de duas novilhas, um boi, uma vaca e arado, e o restante para iniciar a construção da casa de dois cômodos, onde mora com o marido. Seu sonho imediato? ''A gente tem de conseguir terminar nossa casa'', planeja, em meio à escuridão da noite que avança.

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