Pequenas crueldades
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 06 de fevereiro de 2009
Rosiane Correia de Freitas<br> Equipe da Folha 
Na fila para ser atendida no cartório, uma senhora segura com cuidado uma folha de papel. É o documento que certifica que o neto, hoje com 9 anos, nasceu. Aguarda dez, vinte minutos na fila sem se irritar. A paciência é para garantir ao menino o direito de existir legalmente, afinal a criança ainda não tem o registro civil.
A fila demora, mas anda. No balcão a senhora é atendida por uma jovem que ouve impaciente a história que ela conta. Num tom de desagrado, revela: o registro do menino só é possível através de uma ação judicial. O desapontamento da senhora no balcão é visível. Que será desse menino que, para o mundo das formalidades, não existe?
Cartório é assim, pensa a velhinha. Um lugar cheio de gente com poder sobre o ser e o existir alheio. Por ali todo papel tem custo. Um carimbo, um adesivinho e lá se vão R$ 30. E mais meia hora de espera na fila.
No guichê ao lado, outra atendente, de melhor humor que a primeira, observa a cena com interesse. Um, dois minutos depois da negativa da colega, a atendente simpática entra na conversa: ela quer registrar o neto? A mau-humorada responde sem vontade: a criança já tem 9 anos. O tom é de quem decreta fim de papo.
"Mas para registro civil não é preciso ação judicial. Independente da idade", insiste a outra. A velhinha, que já se encaminhava para a rua, volta à vida. "A senhora me dê esse papel aqui para eu ver", pede a bem-humorada. No fim das contas, o registro é possível sim, é o veredito.
A moça mal-humorada deixou de lado a velhinha e se pôs a atender o próximo incauto constragida por ter sido pega no ato. Aquela era sua crueldade diária. Quem será a próxima vítima?


