Pelos olhos dos moradores
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 16 de abril de 2008
Diogo Cavazotti<br<Equipe da Folha 
Quando o filme Cidade de Deus foi lançado, em 2002, o Brasil descobriu o potencial que os moradores das favelas possuem, já que a maior parte dos atores eram moradores de comunidades do Rio de Janeiro. Em Curitiba, os cineastas Luciano Coelho e Marcelo Munhoz, organizadores do Projeto Olho Vivo, investiram nesta descoberta e foram em busca de talentos dentro da Vila das Torres. Eles criaram o projeto Minha Vila Filmo Eu, que desde 2005 atende adolescentes da comunidade que se interessam pela sétima arte.
A primeira experiência dos cineastas na vila foi uma oficina de vídeo para crianças de sete a 12 anos. O grupo trabalhou o conceito e a linguagem cinematográfica, adaptada para quem nunca havia trabalhado na área. Após a conclusão da primeira turma, o projeto foi inscrito no Porto da Cultura, uma projeto do Ministério da Cultura para incentivar programas sociais.
Acreditamos no processo de ensinar trazendo a história dos alunos. O objetivo é mostrar que a arte serve de espelho para a realidade vivida por cada um, explica Coelho. A última turma do projeto acaba de lançar o curta-metragem Um Grito na Vila, com roteiro feito pelos próprios adolescentes, que também filmaram e interpretaram os personagens. No filme, os pais de uma menina viajam e ela resolve fazer uma festa em casa. Porém, os planos não dão certo quanto apenas mulheres aparecem na reunião. Durante a festa, estranhos acontecimentos assustam as convidadas.
Os moradores da vila agora contam com o Cineclube, desenvolvido por Coelho e Munhoz. Filmes são exibidos nos sábados de manhã para que os membros da oficina possam ter mais contato com o cinema. Neste ano estão programadas exibições de filmes brasileiros e curtas de animação.
Esta semana os cineastas fazem a seleção de integrantes para uma nova oficina. A edição deste semestre vai contar com aulas de animação e dublagem. Esta será a última turma do projeto Minha Vila Filmo Eu com a parceria do Ministério da Cultura. Em seguida o objetivo é trabalhar com um grupo de adolescentes que se destacaram nas oficinas, para que se profissionalizem e possam seguir uma carreira no cinema.
São incríveis as histórias que contam. Eles convivem de perto com a violência e o tráfico de drogas. O objetivo do projeto é abrir a cabeça dos adolescentes e trazer a arte para perto deles, conta Coelho. O cineasta explica que é difícil trazer alunos para a oficina. Para isso, divulgam o projeto nas escolas Manoel Ribas e Hildebrando Araújo, onde os moradores da Vila das Torres estudam. É importante mostrar para os jovens que a realidade deles interessa aos outros.
O curso dura quatro meses e as aulas são realizadas duas vezes por semana. Além disso, os alunos que demonstrarem interesses específicos, como manusear a câmera ou interpretar, podem participar de workshops especiais.


