O atendimento e a voz suave não mudaram, mas ela já utilizou cinco centrais telefônicas diferentes em 31 anos de Folha e hoje respira aliviada. ‘‘Quase não dá para acreditar. Parece que estou vivendo no céu. O DDR foi uma bênção’’, comemora a primeira e mais antiga telefonista da casa, Maria Aparecida de Souza, a Cida, referindo-se ao sistema de Discagem Direta a Ramal, implantado em dezembro de 1994.
Cida começou no jornal no dia 1º de agosto de 1967, época em que não havia central automática. Todas as ligações tinham que passar por ela, que precisava recorrer à central telefônica da cidade. ‘‘O pessoal queria a ligação para ontem. Mas todos compreendiam as dificuldades’’, recorda.
Cida lembra que no dia em que a central virou automática foi uma festa. ‘‘Todo mundo queria mexer’’, revela. A modernidade contribuiu e o serviço da telefonista até mesmo diminuiu com o sistema de DDR. Hoje, o público externo pode acionar direto o ramal desejado - são 150 ramais e 45 linhas externas. ‘‘Eu atendia tudo sozinha cerca de 2 mil ligações por dia’’, recorda Cida.
Para ela, a principal vantagem da tecnologia foi possibilitar que, com mais tempo, a atenção dispensada ao cliente pode ser melhor. ‘‘Antes o cliente pedia uma informação, eu passava e já saía da linha. Cansei de ouvir: ‘‘Parece que você está com pressa!’’ E eu respondia que estava mesmo porque enquanto atendia um já havia muitos outros esperando’’.
Cida lembra que quando entrou na Folha fazia ‘‘de tudo’’. Era recepcionista e secretária - ‘‘Nenhum diretor tinha secretária’’, recorda. Também fazia assinatura, pegava jornal atrasado e virava repórter. ‘‘Perdi a conta de quantas vezes anotei acidentes. Quando era caso grave, até fotógrafo a gente mandava’’, lembra.
Ela acredita que naquela época parecia haver mais união. Inclusive para suportar as situações difíceis que o jornal enfrentou. ‘‘O pessoal passava por dificuldade junto com a empresa, mas fazia com amor’’. ‘‘Não vi passar esses anos. É porque a gente faz o que gosta até hoje’’, explica.
E Cida gosta tanto de sua função e do telefone que foi através dele que acabou conhecendo o marido, em 1964. Naquela época trabalhava no Hotel São Jorge Hotel, agora Sahão. O marido era gerente da Varig e fazia reservas para a tripulação. ‘‘A gente sempre conversava, mas eu nunca dei bola. Um dia ele me viu saindo e perguntou na recepção quem eu era’’, conta. O casamento durou 26 anos. Um de seus filhos, Osvaldo, hoje advogado, foi arte-finalista na Folha. O marido faleceu em 1990.
Também foi através do telefone que ela conheceu João Milanez, que morava no quarto 512 do São Jorge. ‘‘Também conversávamos muito por telefone. Ele sempre me respeitou muito. Deixei o hotel quando me casei e fui para Paranavaí. Quando me mudei de volta para Londrina, publiquei anúncio na Folha oferecendo meu trabalho de telefonista. No dia seguinte estava empregada’’. Cida foi trabalhar na TV Coroados. Quando João e Ferdinando souberam que ela estava de volta a Londrina, apressaram-se em convidá-la a atuar no jornal. ‘‘Agradeço a Deus por esse emprego. Devo muito ao seu João. Para mim, ele é mais que um patrão. É um amigo, um pai’’.
Cida tem histórias. ‘‘Tinha uma senhora sozinha que sempre ligava à noite, para conversar. Não soube mais dela’’. O trabalho também fez com que Cida conhecesse várias personalidades. ‘‘Hoje, por exemplo, sou amiga de vários políticos’’, conta, com orgulho. Recentemente, uma secretária da equipe do presidente Fernando Henrique ligou para a Folha: ‘‘Falei para ela mandar um abraço para ele’’, diz Cida.
A receita de 31 anos ininterruptos de jornal: ‘‘Saber guardar segredo, além de trabalhar com amor, procurar sempre fazer o melhor e deixar os problemas em casa. E não puxar o saco de ninguém’’.

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