Terça-feira, começo da noite. Chove muito na região Sul de Londrina. Mais uma vez a reportagem da FOLHA está no 5º Batalhão para acompanhar uma ronda do Pelotão de Choque. Dessa vez, vou com a equipe composta pelo sargento Anésio, soldados Jeferson e Alves e o motorista Cardoso. Eles trabalham no Choque Motos, mas, devido à chuva, serão obrigados a sair de viatura.
Saindo do batalhão, eu pergunto: qual é o sentimento, o que eles pensam neste momento de sair para a rua? ''A gente sai para pegar bandido'', sintetiza o soldado Jeferson. ''A cada dia sabemos que vamos encontrar algo diferente'', completa o sargento.
A terça-feira foi mais agitada que a sexta. Em apenas seis horas, somente a viatura que eu acompanhava abordou 61 homens e duas mulheres. A equipe não é a mesma da sexta-feira, mas o comportamento é semelhante. Os policiais se concentram no que acontece na rua e no que diz o rádio.
Dessa vez, vamos para alguns bairros distantes do Centro e com fama de perigosos. As favelas de Londrina, na escuridão da noite, transmitem insegurança. As ruas são estreitas, sem asfalto e mal iluminadas.
Andar com o Choque, mais do que uma oportunidade de conhecer o trabalho dos policiais, é também ter uma percepção de uma triste realidade de pobreza, desconhecida de muitos londrinenses. Também é desolador encontrar jovens que estão no fundo do poço devido às drogas. No Jardim Eucaliptus (Zona Leste), a viatura aborda nove rapazes. Alguns mal conseguem andar. Estão drogados. ''Infelizmente, encontramos o que sobra de muita gente'', resigna-se o sargento Anésio.
No início do plantão, o rádio avisou sobre dois assaltos que aconteceram na cidade envolvendo uma Parati branca com três ocupantes. São 21h37 quando estamos na Avenida Brasília, próximo ao Jardim Nossa Senhora da Paz. Os policiais estão finalizando a abordagem a dois rapazes em uma moto quando uma Parati Branca, com três pessoas, passa pelo outro lado da rodovia.
Todos ''pulam'' para dentro da viatura e vamos atrás do carro suspeito. Tudo indica que podem ser os assaltantes descritos pelo rádio. Mas ainda não foi dessa vez. Eram três trabalhadores voltando do serviço.
Já é quase meia-noite, estamos no Jardim Santa Fé. No meio da escuridão, um rapaz caminha apressado. Ele é abordado. Na revista, os policiais encontram várias peças de roupas femininas sob a blusa do rapaz, que sua muito, apesar de não estar calor.
A primeira suspeita é de que ele tenha participado de um assalto a residência que há pouco foi informado pelo rádio. Os policiais fazem contato com a central. As características dele não batem com a dos assaltantes. O rapaz jura que não roubou as roupas de ninguém e que apenas está levando as peças para sua irmã que saiu de casa depois de uma briga familiar.
''Acabei de puxar uma cana por receptação, senhor, mas agora estou trabalhando. Sei o quanto é ruim ficar preso. Pelo amor de Deus, as roupas são da minha irmã. Pode me pôr no camburão e ir lá na casa dela para o senhor ver. Não roubei ninguém'', garantiu o rapaz, que foi liberado.
Dez minutos depois, o rádio avisa que um veículo Golf roubado algumas horas antes foi visto no Jardim União da Vitória. Os policiais não têm dúvidas, tocam para a Zona Sul. Uma outra viatura do Choque, na qual estava o editor fotográfico da FOLHA Sérgio Ranalli, chegou um pouco antes. O carro havia sido abandonado em uma rua de terra.
Com o carro recuperado, os policiais resolvem patrulhar o bairro. Já é quase 1h da madrugada de quarta-feira e quatro adolescentes estão na rua, sentados em uma calçada. Automaticamente, são suspeitos de participarem do roubo do automóvel.
Os rapazes dizem que são trabalhadores e estudantes, mas não conseguem explicar porque estão na rua, de madrugada, em um dia de semana. Para tirar a dúvida, os policiais pedem que a vítima seja levada até o local para um reconhecimento. A vítima chega e diz que não foram esses meninos que o assaltaram. Os garotos são liberados, mas antes ouvem diversos conselhos dos policiais. É hora de voltar para o batalhão. Termina mais um plantão do Choque.

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