Patrimônio Selva. Parado no tempo
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sábado, 11 de setembro de 2004
Fernando Rocha Faro<br>Reportagem Local 
A tranquilidade e o silêncio da Zona Rural. A entrega do leite direto da vaca para a porta de casa. O trabalho árduo na lavoura. As festas religiosas. Essas cenas ainda são comuns no Patrimônio Selva (14 km ao sul do Centro de Londrina), um distrito rural ''imune'' ao progresso desenfreado da cidade. Uma visita ao bairro é como uma volta no tempo. A vida das pessoas é simples e o sossego e o respeito às tradições fazem parte da rotina dos moradores.
Grande parte dos cerca de 3 mil habitantes é formada por moradores antigos, pioneiros do bairro e até da Região. O progresso foi tímido, mas trouxe benefício aos habitantes do vilarejo e das propriedades rurais. Asfalto na rua principal, um posto de saúde e uma escola são conquistas até certo ponto recentes do Selva. A segurança e a tranquilidade são algumas das principais vantagens de morar longe do agito do centro londrinense, apesar de estar próximo da cidade.
Novos loteamentos e uma fábrica de cerveja recém-inaugurada são as mais recentes novidades do tradicional bairro rural, mas que não significam mudança drástica na paisagem ou na rotina do patrimônio.
O vilarejo do Selva, que cresceu ao redor da igreja, abriga cerca de 300 moradores. A praça e o campo de futebol são espaços dominados pelas crianças, que têm uma infância privilegiada em comparação a quem mora em apartamento e praticamente não tem liberdade para sair à rua.
O divertimento dos tempos de criança é uma das maiores alegrias na memória do presidente da Associação de Moradores Joaquim Rocha Melchiades. ''A gente aprontava. Só fazia arte. Como não tínhamos rádio nem televisão, as brincadeiras eram nas plantações, na lavoura'', rememora. Ele destaca as caçadas de passarinho com alçapão - ''O pai não deixava usar estilingue'' - as melancias furtadas das plantações e a façanha de cortar rabo de cavalo só pela aventura.
O lazer tem como ponto alto as festividades da igreja em datas especiais, como o Dia de São Sebastião. As celebrações mantêm alguns elementos tradicionais, como o bingo e o correio elegante, precursor histórico da paquera virtual pela internet. No evento mais recente, mais de mil pessoas reuniram-se para celebrar uma festividade junina. A exemplo das quermesses, o Selva mantém outras atividades históricas, que hoje praticamente não são mais encontradas nem mesmo em cidades de pequeno porte.
Uma amostra é a entrega de leite de casa em casa. O agricultor Francisco Aranda, 74 anos, um dos pioneiros do local, por amizade, ainda presta esse serviço. Após anos entregando leite para um lacticínio da cidade, Aranda desistiu da atividade. Ainda hoje, no entanto, tem umas vacas leiteiras e comercializa o produto com algumas poucas famílias do patrimônio, que não têm condição financeira de buscar leite na cidade. De certa forma, como o próprio Selva, Francisco Aranda é um morador que valoriza a tradição e mantém uma rotina quase inalterada, praticamente parada no tempo.


