Nem passe, nem escanteio, nem tiro de meta. No país do futebol, quem pratica a patinação artística está mais para autor de um gol de placa. Com irrisórios incentivos e divulgação mínima, fato é que a patinação mescla, como poucas práticas, conceitos como beleza, precisão e muita técnica.
Disposta a trazer à tona um pouco mais do esporte que não ganha espaço na programação de tevê mas, paradoxalmente, a cada dia arregimenta novos adeptos, a reportagem da FOLHA foi a um rinque de patinação da cidade com a seguinte interrogação: seria a patinação sobre rodas esporte ou cultura?
Após algumas horas, a constatação: para quem vive a emoção e rotina de saltos e currupios - dois dos principais movimentos -, a prática é um pouco de tudo. E muito mais.
Levantar a cabeça! - Para Amanda Terciotti, 14 anos, a patinação serviu como um ponto final à timidez e à reclusão. Duas vezes campeã estadual, Amanda considera-se ''outra'' nos dias atuais. ''Antes da patinação, eu era tão introvertida que não conseguia encarar as pessoas. Com a patinação, desenvolvi a coordenação motora, passei a ser mais organizada, a ter mais disciplina, a me alimentar nos horários certos e, principalmente, a levantar a cabeça'', avalia.
A extensa lista de benefícios não pára por aí: três anos antes do vestibular, Amanda descobriu sua vocação. Literalmente patinando! ''Sempre gostei de ver tecido, bordados, todos esses detalhes da roupa, gosto de me produzir para os shows e apresentações. A partir de então, decidi que vou cursar moda''.
Roller na Itália - Aos 15 anos, Carola Veronesi pode ser considerada uma ''veterana'' se o assunto em pauta for a patinação. ''Comecei no século passado'', afirma, aos risos. ''Nasci em Roma e lá andava de roller. Quando vim para Londrina, em 1999, passei a me dedicar à patinação artística. Não parei mais''.
O balé sobre rodas - no início, puro entretenimento - revelava, já neste século, uma de suas expoentes. Recentemente campeã paranaense, Carola estreou anos depois no páreo de disputas. De lá para cá, são 11 competições num misto de emoções diferentes. ''Meus primeiros campeonatos foram um fracasso. Já perdi, já ganhei, já caí. Em 2001, após algumas disputas, obtive um 3º lugar e, depois disso, cheguei em primeiro em todos'', conta, feliz.
Tamanho empenho e dedicação já renderam frutos, na versão em família. ''Minha irmã também faz, ela começou tendo aulas comigo e nossos pais nos incentivam'', revela a jovem, que, além de hábil sobre as rodinhas, é professora da modalidade e considera o equilíbrio seu principal ganho, com o expediente de treinos.
Prestes a viajar para intercâmbio de seis meses na França, Carola - que ano que vem pretende participar do Campeonato Brasileiro -, tem ''esquema armado'', durante a estada no Velho Continente. ''Já liguei para o colégio em que vou estudar, marquei horário e vou continuar dando meus saltos e currupios por lá''.
Filha de pais americanos, Kendra Joy Edwars, de 17 anos, estreou quase que ''sem querer'' no universo regido pelos patins. ''Quando tinha 9 anos, fui acompanhar minhas primas, inscritas em uma aula de patinação. Elas foram, eu fiquei''.
Arte sem regras - Apesar de ter dado início às aulas um pouco mais tarde do que a maioria das jovens que a circundam, Kendra acredita que, por conta disso, sua escolha teve maior identidade. ''Não sofri qualquer tipo de influência. Estive e estou no rinque porque sempre gostei''.
Ao contrário de Amanda e Carola, Kendra, que compete há alguns anos, gosta mesmo é de se apresentar artisticamente. ''Prefiro esse lado artístico porque não tem regras, permite a criatividade e cada um dança no seu estilo. Posso caprichar no brilho, nos cristais e no strass'', entrega.
Sem preconceito - No dia em que a reportagem da FOLHA esteve em um rinque de patinação da cidade, alguns marmanjos executavam, com precisão, suas manobras. A cena, a cada dia mais comum, mostra tendência apontada pela professora Julia Adum: a atual geração de patinadores superou os preconceitos. ''De dois anos para cá, a procura por parte dos meninos cresceu em cerca de 80%. Hoje, temos em torno de 20 alunos meninos''.
Aos 11 anos, Lucas Terciotti treina quatro vezes por semana. Quem o vê patinando, logo percebe: a habilidade está em seu DNA. ''O Lucas via a irmã patinando e tinha a idéia fixa: quando completasse 6 anos, iria começar. Deu certo'', relembra a mãe, Maria Ilce.
Alvo de piadinhas durante sua trajetória, Lucas sempre tirou de letra as situações. ''No começo, havia mais preconceito, mas nunca liguei. O esporte é para todas as pessoas. Hoje, muitos amigos assistem às minhas apresentações'', afirma o rapaz, que já perdeu as contas da quantidade de medalhas e troféus obtidos.
Advogado e patinador - Felipe Micheleti tem 16 anos e há três optou pela patinação. ''Preconceito sempre tem, uma piadinha aqui, outra lá. De 2004 para cá, no entanto, percebi que, com a adesão de mais meninos, houve uma mudança nesse comportamento''.
Totalmente habituado aos saltos, coreografias e giros, Felipe, que quer cursar Direito, nem pensa em abdicar dos patins. ''Vou ser o advogado que também é patinador'', brinca.

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