Passo a passo em busca de um sonho
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 26 de julho de 2007
Denise Ribeiro<br>Equipe da Folha 
Quando se pensa em dança a imagem que predomina é sempre aquela do espetáculo, mas os mágicos momentos dos bailarinos em cena são o resultado de um longo e sacrificado processo, nem sempre conhecido. É como se o que se passa no palco fosse apenas a ponta de um imenso iceberg.
Em turnê pelo Brasil, o consagrado bailarino Mikhail Baryshnikov explicou à imprensa na semana passada em Joinville (SC), onde se apresentou na Noite de Abertura do Festival de Dança, que através de seu Centro de Artes, em Nova York, busca ajudar jovens bailarinos a lidar com a viabilidade econômica da profissão, que Baryshnikov considera o pior obstáculo para quem opta pelo caminho da arte. Bailarino em Curitiba desde 2003, Bernardo Arthur Fernandes Weisheimer, de 21 anos, sabe bem o que isso significa.
Mesmo tendo começado a dançar mais tarde do que o habitual para quem pretende seguir carreira como bailarino, Bernardo foi aprovado em outubro do ano passado para a turma mais avançada da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, com sede em Joinville. Sem apoio financeiro da família para as despesas que surgiriam com a mudança de Curitiba para a cidade catarinense, Bernardo iniciou uma luta pela sobrevivência de um sonho, o que dura até hoje.
A seis meses de sua formatura pela Escola do Teatro Bolshoi, o bailarino diz que a dificuldade econômica continua grande. É sempre aquele desgaste de não saber se vai dar, estou numa situação financeira horrível, afirma. Os pais do bailarino são divorciados. A mãe não tem condições de ajudar e o pai desaprova a profissão escolhida pelo filho. Meu pai abomina o que eu faço. Diz que eu tenho que ganhar dinheiro, trabalhar, fazer outra coisa. Mas eu estou no caminho, tenho que estudar. É como em qualquer outra área. Talvez se ele me desse apoio seria muito mais fácil. Até para ganhar dinheiro, porque quando você se concentra a coisa vai, conta Bernardo. Não me sinto bem dizendo isso, não é uma coisa legal você precisar das coisas, lamenta.
Quando tinha 10 anos Bernardo pediu à mãe para fazer aula de balé mas não foi atendido. Ele conta que nem se lembrava disso e que a mãe contou essa história há pouco tempo. O primeiro contato direto com a dança acabou acontecendo aos 17 anos. Quando estudava no Colégio Estadual do Paraná tive uma namorada que era bailarina e passei a assistir às apresentações, lembra. O interesse pela dança ressurgiu e depois de três meses de aula ele foi aprovado, em 2003, na seleção para a Escola de Dança do Teatro Guaíra, onde estudou durante três anos, até a audição para a Escola do Bolshoi.
Logo que foi confirmada a aprovação em Joinville, amigos da mãe de Bernardo ajudaram com as despesas da matrícula e dos primeiros meses de estadia. As mensalidades são custeadas por uma bolsa de estudos da própria Escola. Bernardo tem aula de seis a oito horas por dia, de segunda a sexta-feira. E mesmo com a carga horária intensa está à procura de algum trabalho compatível que lhe permita complementar a renda de um salário mínimo que recebe como pensão alimentícia do pai. Em janeiro consegui trabalhar em Curitiba e usei esse dinheiro para as despesas do primeiro semestre. É bem desgastante, fico nervoso, revela o bailarino.
Até as férias de julho Bernardo dividiu apartamento com um colega em Joinville. Ao perceber a dificuldade econômica do bailarino, uma funcionária da Escola do Bolshoi ofereceu por um aluguel mais baixo um lugar no quarto do filho dela para Bernardo continuar seus estudos. Eu sou muito atencioso e carinhoso com as pessoas e em algum momento perceberam a minha dificuldade, avalia.
Durante este período de férias, Bernardo ensaia em Curitiba um espetáculo com a Companhia de Dança Masculina Jair Moraes. A companhia se apresenta hoje, às 20h30, em Madirituba, no Teatro Municipal (Rua da Liberdade, 353, Centro). A entrada é gratuita. Em 2004 e 2005, ele participou da turnê do grupo pela região Sul, São Paulo e Paraguai, quando a companhia ainda levava o nome no Teatro Guaíra.
Quando as aulas em Joinville recomeçarem, Bernardo estará de volta para mais um semestre que exigirá muita força de vontade. Às vezes fico com medo de não conseguir. Mas eu quero muito isso, gosto muito desse mundo relacionado à arte. Não consigo me ver fazendo outra coisa. Para mim a arte não é supérfluo, é o essencial.


