Nos anos 60, o economista John Kenneth Galbraith classificou a Índia como uma ‘‘anarquia funcional’’. Embaixador dos EUA naquele país, ele não entendia como aquele amontoadado de gente e bichos conseguia conviver de forma organizada. Em pleno Século 21, o país e seus 1,1 bilhão de habitantes estão mais abertos para o mundo – mas sua essência permanece a mesma. E a reposta para as dúvidas de Galbraith talvez estejam na religião praticada por mais de 80% dos indianos: o hinduísmo.
  ‘‘O hinduísmo busca o eu, o autoconhecimento. E isso se estende para a vida diárias das pessoas na forma de harmonia e equilíbrio’’, afirma Sandra Cury, professora do curso seqüencial de Yoga das Faculdades Integradas Espírita e uma das idealizadoras do Memorial de Iconografia Hindu Neusa Kutianski.
  A exposição, batizada com o nome de uma das pioneiras da ioga em Curitiba (morta há dois anos), conta com 50 imagens de divindades do hinduísmo. Abriu no último dia 7 e fica em cartaz até janeiro, quando deve se mudar para outro local. A idéia dos organizadores é conseguir apoios para torná-la permanente.
  Pesquisadora de filosofias orientais há 25 anos, Sandra atribui à globalização o recente aumento do interesse do ocidente pelo hinduísmo. Para ela, o grande atrativo dessa tradição religiosa está em sua combinação de espiritualidade e simbolismo. ‘‘Não é só religião, nem só cultura. É um complexo sócio-religioso’’, define.
  Estima-se que o hinduísmo, de orientação politeísta, surgiu na Índia há cerca de 4 mil anos. É formado por diferentes correntes e denominações que, somadas, fazem de seus fiéis o terceiro maior grupo religioso do planeta – perdendo apenas para os cristãos e muçulmanos. São mais de um bilhão de praticantes em todo o mundo, 90% deles indianos e nepaleses.
  Para os hindus, tanto os seres humanos quanto os animais reencarnam, e cada indivíduo pertence à casta (grupo social) que merece. Quanto maior a evolução espiritual de uma pessoa, mais alta será sua casta. Embora a constituição indiana proíba essa separação desde a década de 50, o sistema continua presente na realidade do dia-a-dia.
  A exemplo de várias outras religiões, o hinduísmo não preconiza a felicidade na Terra. Para se libertar, o homem deve buscar a paz em si mesmo, por meio da prática da ioga e da meditação.
  Aliás, a pronúncia correta é ‘‘ióga’’ ou ‘‘iôga’’?
  A professora explica. ‘‘Yoga, com ‘y’, é uma palavra em sânscrito do gênero masculino, pronunciada como se tivesse o acento circunflexo no ‘o’. Na transliteração para o português, acabou se tornando do gênero feminino, grafada com ‘i’ e pronunciada com a vogal ‘o’ aberta’’. Enfim: as duas formas estão certas.
  Sandra, que esteve duas vezes na Índia, esclarece outras dúvidas. As divindades são representadas com vários braços por terem muitos atributos e bençãos para oferecer. Já a postura de não maltratar os animais decorre da crença de que ‘‘se respira, está vivo, vem dos deuses’’. A vaca, por sua vez, é sagrada porque o deus Krishina foi pastor de um rebanho de bovinos.
  Sobre o dito popular indiano de que o hinduísimo tem mais de 33 milhões de divindades, a professora diz que se trata de um número simbólico. ‘‘Como o universo é infinito e indefinido, os hindus acreditam que a multiplicidade está na unidade. O eu interno é o seu deus. E quem crê nisso jamais vai se perder’’.


SERVIÇO
Memorial de Iconografia Hindu Neusa Kutianski
Biblioteca das Faculdades Integradas Espírita
(Rua Tobias de Macedo Júnior 333, bairro Santo Inácio)
De segunda a sexta, das 9 às 22 horas. Sábados, das 9 às 12 horas.
Entrada franca.
Até janeiro de 2009.
Informações: (41) 3111-1709.


SIMBOLOGIA
Conheça algumas das divindades mais populares do hinduísmo
Brahma - O criador de todas as coisas. Com Vishnu e Shiva, forma uma tríade divina que equivale ao Pai, Filho e Espírito Santo do cristianismo.
Shiva - Aquele de destrói para renovar.
Vishnu - Simboliza a preservação, o equilíbrio entre a criação e a destruição.
Krishna - Oitava encarnação de Vishnu, protege os bons devotos e representa o amor divino (como Jesus Cristo).
Ganesha - Filho de Shiva, remove os obstáculos e limpa caminhos. São várias as história sobre a origem de sua cabeça de elefante.
Lakshmi - Esposa de Vishnu, é um símbolo de prosperidade e beleza (a exemplo de Afrodite na mitologia grega).

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