Páscoa dos imigrantes
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 27 de março de 1997
Fabiano Camargo 
Albari Rosa
Multicoloridas e com desenhos que trazem muitos significados, as pêssankas são um dos símbolos da Páscoa da cidade
Numa cidade construída por uma grande variedade de etnias como Curitiba, a Páscoa não se resume a chocolates e coelhinhos felpudos. Os imigrantes trouxeram boa parte das suas tradições, que até hoje resistem intactas e preservam a identidade cultural destes povos. Com a proximidade do período de festa cristã, dois grupos de imigrantes se destacam por conservar as tradições pascoais de tempos remotos: ucranianos e poloneses. De tão importantes, as manifestações religiosas e tradicionais dos dois grupos já foram incorporadas à programação oficial da prefeitura.
Se fosse necessário escolher uma imagem para sintetizar as comemorações da Páscoa em Curitiba, muito provavelmente a imagem escolhida seria a dos ovos coloridos, meticulosamente pintados à mão, chamados de pêssankas. Mais importante manifestação da cultura dos povos eslavos, com uma história milenar (existem registros que datam de 3.300 a.c.), esta modalidade artística é especialmente preservada na cidade pelos ucranianos - que ficaram mais conhecidos pela atividade - e poloneses, bem como seus descendentes. O fato de Curitiba e o Paraná possuírem os maiores centros de imigração destas duas nacionalidades dentro do Brasil contribuiu para que a arte das pêssankas fosse associada à região.
A palavra pêssanka deriva do verbo pessaty, que significa escrever. De fato, as formas e desenhos tem todo um simbolismo, como explica a artesã Mara Bressan Klimczuk, que ministra oficinas no Memorial Ucraniano e já venceu vários concursos. O significado geral é o da ressurreição de Cristo e da continuidade da vida, mas os artistas incluem outros elementos. Desde a era pagã as figuras das pêssankas possuem significados ligados a saúde, prosperidade e fertilidade. Com o cristianismo, os símbolos foram adaptados e temas como a ressureição foram introduzidos, conta. O trigo, por exemplo, representa uma boa colheita; pássaros, a fertilidade; estrela, a longa vida; alces, a riqueza; triângulos, a santa trindade ou os elementos ar, fogo e água. Estas traduções variam conforme o país e mesmo conforme as regiões dentro de cada um. Na Polônia, é muito frequente o uso de formas rosáceas com até 13 pontos, onde cada um deles representa pólos de energia.
Uma coisa que não muda tanto para poloneses como para ucranianos é a crença de que os significados das pêssankas só se transformam em realidade quando os ovos são dados. Comprar um para si mesmo parece não dar resultado. Para os ucranianos, as pêssankas integram toda uma tradição. No sábado de aleluia, são benzidas cestas com alimentos como o pão ucraniano (paska), carne de porco assada, figuras de carneiros esculpidas em manteiga e ovos cozidos pintados em diversas cores (crachancas), além das pêssankas.
Os alimentos serão consumidos no café da manhã do domingo. O dono ou dona da casa pega um dos ovos cozidos e o divide entre as pessoas da mesa, como forma de distribuir a prosperidade. As pêssankas são oferecidas aos amigos e familiares, com o cumprimento Krestós Voskrés (Cristo ressuscitou). Este ano, a benção dos alimentos acontece no Memorial Ucraniano, no parque Tingui, a partir das 16 horas.
O ritual de Páscoa dos descendentes de poloneses é bem parecido. As cestas com alimentos também fazem parte da tradição, sendo benzidas na mesma época. Os alimentos variam um pouco - um elemento fundamental é o babka, bolo polonês feito com fermento natural, ovos, nozes, castanhas, frutas secas e outros ingredientes. Para realizar a benção, que acontece no Parque João Paulo II na tarde do sábado (16 horas), o padre utiliza geralmente as chamadas palmas de Wilenska, feitas de flores secas e palha de trigo.
A manutenção destas tradições é muito bonita porque traz uma integração da cultura dos nossos ancestrais com a cultura local e do Brasil, diz Danuta Lisicki de Abreu, administradora do Parque João Paulo II e organizadora de diversas exposições e atividades culturais ligadas à Polônia. Grande parte das pessoas que vem participar da benção dos alimentos não são poloneses e nem descendentes.


