Curitiba e os municípios da Região Metropolitana contam hoje com aproximadamente 50 quilômetros de linhas férreas cruzando bairros e ruas. Somente na Avenida Anita Garibaldi, no Ahú, são seis passagens de nível (cruzamento do trilho com a via de asfalto). O resultado da mistura entre trânsito de trens de carga e o tráfego intenso de veículos e pedestres no perímetro urbano é a ocorrência regular de colisões e atropelamentos.
  Até a semana passada, a América Latina Logística (ALL), empresa que opera a malha ferroviária na região, registrou 12 acidentes nas passagens de nível e seis atropelamentos, desde o mês de janeiro. A ALL ressalta que o índice também conta como atropelamento os casos de ‘‘desova’’ de cadáver nos trilhos. O Batalhão de Polícia de Trânsito (BPTran) registrou no primeiro semestre deste ano, cinco acidentes com vítimas e um sem vítima, envolvendo trens.
  Isabella Mariah Gomes Ferreira, de 10 anos, já viu um acidente no cruzamento da linha férrea próximo à escola onde estuda, em Pinhais. ‘‘Estava vindo da escola, o carro foi passar e o trem bateu’’, conta. Isabella diz que cruza a linha diariamente para comprar pão com a mãe e toma cuidado ao passar pelo local, mas nem todos agem como ela. ‘‘Sempre procuro olhar, se o trem está vindo espero ele passar. Tem muita gente que não espera e acaba acontecendo um acidente’’, observa a menina, que na semana passada participou das atividades do Vagão do Conhecimento, projeto da ALL para promover a segurança da linha férrea.
  Os mais impacientes preferem ‘‘pular o trem’’, explica Otávio Bannwart, de 10 anos. Isso acontece quando o trem está parado e os pedestres preferem passar entre os vagões em vez de esperar a composição sair do caminho. ‘‘Tem gente que pula o trem para não chegar atrasada. Passei uma ou duas vezes, fico com medo de pular e ele entrar em movimento. Só sei que é bastante perigoso passar lᒒ, afirma Otávio. O menino lembra que recentemente o trem atropelou um homem que andava de bicicleta perto da escola. ‘‘Só tomo cuidado para não ser atropelado.’’
  Felipe da Silva Schadlich, de 10 anos, diz que já levou ‘‘altos sustos’’. ‘‘Já quase morri, ouvi a buzina e sai do trilho. Pensei que eu ia desaparecer do mapa’’, lembra Felipe, que já viu um trem entrar em movimento no instante em que um homem atravessava entre os vagões carregando uma bicicleta. ‘‘Dá um susto porque o trem começa a andar na hora. O cara jogou a bicicleta e pulou’’, relata o menino. Segundo a diretora da Escola Municipal Dona Maria Chalcoski, de Pinhais, Sara Regina Amorim Cini, o comportamento dos mais velhos é exemplo para as crianças. ‘‘Por mais que o trabalho de conscientização seja feito, os próprios pais não têm consciência e influenciam os filhos’’, lamenta.
  Para a gerente de responsabilidade corporativa da ALL, Danielle Milarski, o problema é cultural. ‘‘Os pais não vêem perigo. É difícil mudar o hábito de um adulto, com as crianças é muito mais fácil. Esperamos que elas levem isso para casa e repassem para os pais’’, justifica.
  Vizinha da linha férrea no bairro Vila Oficinas, em Curitiba, há cinco anos, Vanessa Perpétua da Silva nunca viu acidentes com trens no local mas já flagrou várias imprudências cometidas por crianças e jovens. ‘‘A piazadinha brinca mesmo, esperam o trem chegar pertinho pra sair. Se seguram no trem e depois pulam. Nas férias e finais de semana é mais freqüente ainda. Eles não têm medo de nada’’, afirma.
  Moradora do bairro desde que nasceu, Daniele Corradini diz que sua mãe cruza o trilho a pé até cinco vezes por dia e desde que Daniele era criança a mãe a orientava sobre o risco de acidente. ‘‘Minha mãe
nunca deixou eu vir sozinha, eu sempre passava com ela. Se eu tivesse um filho não ia deixar
solto por aqui’’, observa.

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