PARE! - Um pouco de ócio faz bem para a saúde
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de janeiro de 2008
Vera Fiori<br>Agência Estado 
São Paulo - A leseira, a preguiça, a malemolência são estados de espírito atribuídos aos baianos. Culpa de Dorival Caymmi. Quando se pensa no assunto, logo vem à cabeça a imagem marota do cantor esparramado numa rede, muito embora digam que ele é mais chegado a uma cadeira de balanço. A preguiça como identidade cultural do povo baiano, para o poeta e antropólogo Antonio Risério, seria um dos muitos mitos cultivados pela propaganda, pelo turismo e por artistas. ''Caymmi não é uma regra, é exceção. Trabalha-se muito aqui. Outro mito é de que, na Bahia, o sol brilha o ano todo, mas não é bem assim. Temos nove meses de chuva e três meses de sol''.
O assunto rendeu até uma tese, ''O Mito da Preguiça Baiana'', defendida há quase dez anos na Universidade de São Paulo pela antropóloga Elisete Zanlorenzi. Na ocasião, Gilberto Gil, autor da deliciosa ''Ladeira da Preguiça'', disse à antropóloga que a preguiça é especiaria que a Bahia oferece ao Brasil. ''Ela produz benefícios inimagináveis.... é a água, é o feminino, é o obscuro.''
Da Bahia para a Itália, o sociólogo Domenico De Masi é que está certo. Trabalha nove meses por ano e, nos outros três, relaxa numa cidade na Costa Amalfitana, no sul da Itália. Para ele, perfeito mesmo seria inverter esse arranjo, ou seja, passar nove meses lendo, ouvindo música, conversando, e trabalhar os três restantes. Hoje, defende De Masi, os grandes luxos são o tempo, o espaço, o silêncio, a autonomia, a segurança. Segundo ele, o progresso tecnológico e organizacional permite a produção de um maior número de bens e serviços, com menos trabalho humano. Nessa linha, cinco ou seis horas de trabalho seriam suficientes para um executivo.
Trabalhar e desfrutar. Autor de um livro a respeito, Renato Bernhoeft, consultor de empresas e presidente da Bernhoeft Consultoria, que representa o FBCGi - The Family Business Consulting Group International na América Latina, ressalta que não se deve postergar o ócio para a aposentadoria ou pós-emprego. ''Minha recomendação enfática para os executivos é a de que o desfrute não é incompatível com o trabalho. O prazer da vida não existe apenas nos fins de semana, feriados, férias ou aposentadoria.''
Direcionar o ócio para atividades lúdicas, comunitárias, esportivas, projetos educacionais e culturais são algumas das alternativas para usufruir do tempo com qualidade. Autor do livro ''Você, Dona do seu Tempo'', Christian Barbosa, especialista em gestão de tempo, coletou, desde 2005, mais de 18 mil testes, 46% feitos por mulheres e 54%, por homens, com idades médias de 33 anos. O resultado é alarmante. A mulher tem maior foco entre as urgências e atividades importantes do que o homem.
Existe uma verdadeira epidemia de enfartes entre as brasileiras, um quadro bem diferente do de 1970, quando a proporção entre homens e mulheres era de 10 para 1. Christian sugere marcar uma reunião uma vez por semana consigo mesmo. ''Vá a um cinema, ao cabeleireiro, a um bom restaurante, faça algo que lhe dê prazer, isso vai ajudar a diminuir o ritmo e reduzir a ansiedade.''


