Vânia Casado
De Curitiba
A preocupação do Paraná, a respeito do grande debate sobre produtos transgênicos que está mobilizando várias correntes de opinião no País e no mundo, é assegurar mercado consumidor para sua produção. Os produtores paranaenses são adeptos do plantio da soja transgênica, em função das promessas de redução dos custos de produção. De seu lado, a Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep) pede calma aos produtores para que o assunto seja melhor avaliado, com o único objetivo de garantir mercado.
A justificativa da entidade é que 70% da produção de soja paranaense é absorvida pelo mercado europeu, que já enviou duas missões de supermercadistas ao Estado para avisar que não vão comprar os produtos transgênicos. Os supermercadistas europeus também estão preocupados em manter a clientela, que é muito exigente e rejeita os produtos transgênicos. O governo estadual decidiu abrir o debate, ouvindo outros representantes do setor produtivo.
Numa reunião realizada na Secretaria da Agricultura, foi consenso que o mercado paranaense pode explorar dois mercados: o cultivo de soja tradicional, para atender os mercados mais exigentes, e o cultivo de soja transgênica, para mercados que permitem a comercialização de produtos geneticamente modificados. Para estabelecer critérios nessa diferenciação, a Seab enviou dois técnicos da Claspar (Serviço de Classificação do Paraná) para um treinamento na França. Eles vão identificar a origem da produção e certificar os produtos não transgênicos, uma garantia de que os produtos poderão ser rotulados, como defende Instituto de Defesa do Consumidor (Indec).
Além dos supermercadistas ingleses, o Carrefour também já manifestou sua posição favorável à rotulagem do produto transgênico. O diretor de Agropecuário do supermercado no Brasil, Arnaldo Eijsink, já anunciou que vai comprar somente de soja e produtos derivados de soja não-transgênicos. Segundo ele, o Carrefour vai se estruturar para rastrear o caminho da produção de todos os produtos derivados de soja, até identificar a origem e de que forma o grão foi plantado. O diretor justifa o empenho, afirmando que o cultivo tradicional vai representar um importante nicho de mercado a ser explorado. Por aí se conclui que o mercado vai ajustar o avanço da tecnologia.
A Monsanto é a única empresa multinacional envolvida numa batalha judicial para regulamentar a venda de sementes de variedades geneticamente modificadas. A tecnologia foi aprovada pela CTNbio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) e teve o registro de comercialização concedido em maio pelo Ministério da Agricultura. Tudo indicava que o mercado brasileiro iria ter sementes de soja transgênicas disponíveis para o plantio da última safra do século. No entanto, a Justiça suspendeu o cultivo em escala comercial, exigindo um estudo prévio de impacto ambiental e a regulamentação de normas de biossegurança e de rotulagem pelo governo. Com essa decisão, todas as atividades relativas ao plantio da soja transgênica estão paralisadas.
Apesar disso, a pesquisa de sementes geneticamente modificadas não está restrita à Monsanto. Além das multinacionais, órgãos de pesquisa públicos e privados também estão envolvidos com os estudos. No Paraná, a Codetec (Cooperativa Central de Desenvolvimento Tecnológico), a Embrapa-Soja, de Londrina, e o Iapar se dedicam à pesquisa com transgênicos.
A Codetec está fazendo experimentos com o gen transgênico, criado pela Monsanto, em cerca de 10% das variedades já lançadas e outras em processo de lançamento. A cooperativa pretende lançar a primeira variedade transgênica comercial em 2001. O presidente da entidade, Ivo Carraro, diz que a soja transgênica representa uma ‘‘ferramenta’’ a mais para agregar valor à semente, sendo que o produtor poderá utilizá-la se ela for economicamente viável, ou não.Além da multinacional Monsanto, órgãos de pesquisa públicos e privados pesquisam a soja modificada
Arquivo FolhaPara a Faep, a produção de soja transgênica pode levar à perda de mercados na Europa, cujos países só pretendem comprar o produto tradicional, por pressão dos consumidores

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