José Ricardo de Lima Rímoli
Nasci com tudo, modéstia às favas. Dia dos Reis na Av. São Paulo, nome da locomotiva do progresso deste Brasil, filho dos melhores pais da terra, João Rímoli, ex-redator chefe desta Folha e Dona Taizinha, aquela que fazia no mínimo o mais saboroso arroz com feijão deste mundo. Ah! E segundo eles, fui confeccionado em Ribeirão Preto, outro ícone desenvolvimentista.
Mas na tentativa de abalar minha perfeição, uma danada asma vivia tirando meu ar, empanando um brilho futebolístico ímpar, nem Três Corações tinha algo parecido.
Cresci numa casa perto do Buracão, hoje Moringão, depois na Av. Rio de Janeiro, ficava chorando esperando tio Nilson – ex-editor chefe da Folha – para ir ao Vitorino Gonçalves Dias, ‘‘quelo iii no chutebol, quelo iii no chutebol...’’
E graças a tal asma morei um período em Porto Alegre, outro em Santo André com Zé Ricardo de Lima, avô, artífice, junto com tio Nilson, da inscrição deste aqui como palmeirense de peso, voltei, fui vendedor de jornal na rua, pois João Rímoli queria passar passar uma educação prática aos filhos em relação às dificuldades da vida.
Bom. Aos 11 anos saímos do Norte do Paraná para o Norte de São Paulo, Bebedouro, mas anos depois, patrocinado pelo Zé Ricardão, volto, no auge da aborrecência, tentando trabalhar, tentando, tentando e não conseguindo, só enganando o velho para farrear, paquerar e bebericar, sem encarar a vida séria.
Talvez por isso meu destino tenha sido Salvador, meu amor Bahia. O lugar lindo-feio, delicioso-ruim, atraente-repelente.
Explico. Tem musicalidade sem igual, tem praias maravilhosas, tem mulheres bonitas, tem festa, festa, festa.
Mas em compensação tem a mais gritante mostra das desigualdades sociais desta nação.
A orla é esplendorosa, mas bairros como Liberdade, Itinga, Saramandaia, Vale das Pedrinhas são favelas onde a proporção filhos/família é muito grande – já que a Igreja Católica proíbe o uso de preservativos, poderia adotar uma infinidade de crianças jogadas ao mundo por falta de esclarecimento dos pais- e a oferta de emprego é muito pequena.
Salvador tem o mais índice de população de cor, pretos retintos, mulatos, etc. Mas preto tem vez no Olodum, Timbalada, Araketu ou como jogador do Bahia e do Vitória, time da minha simpatia.
Salvador é o único império do País. Tem rei, o rei do gado e um monte de vaquinhas de presépio abanando o rabinho. Como pobrecitário, já que não sou mais dono de agência de propaganda, não comunista e não petista, AED convicto-anti-extrema-direita – sugiro a mudança do nome do estado para Acemelândia, capital Magalhópolis, colocando as coisas no devido lugar.
Mas voltando a compensação. Oferece-se música incrível para dançar, Ivete Sangalo, Netinho, Cheiro de Amor, Margareth Menezes, Daniela Mercury, Ricardo Chaves, Pimenta Nativa, Banda Eva, Banda Beijo, todos conquistando seu espaço com música e apoiando ACM, claro, mas também coloca aos ouvidos do mundo a melhor música brasileira, vide Gil, Bethânia, Gal e o Pelé da questão, Caetano chato Veloso. O ritmo da terra é inebriante, o baiano em geral é trabalhador, basta adaptar-se ao parafuso horário, Porto da Barra, Farol da Barra, Piatã, Itapoã, Jaguaribe, Aleluia, Arembepe, Guarajuba, Praia do Forte (uau!), Linha Verde, Mangue Seco, Morro de São Paulo, Ilhéus, Porto Seguro (outro uau!!) e por aí vai.
O litoral baiano pode ser definido em duas palavras no legítimo baianêz: de lenhar!
Lembro de Londrina, lembro da limpeza, do dinamismo, tenho um postal de 89, fico com saudades da terra que amo – embora saiba que a UDR é meio dona daí – mas traio por causa de Salvador. A Bahia é venenosa e estou inoculado.
Mas Londrina, você é a prova incontestável (bonita palavra) de que a distância não afeta a paixão pura.

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