Para vencer nichos de preconceito, só capacitação
A necessidade de capacitação todos os professores da rede estadual de ensino em temas como sexualidade acende, tanto no Núcleo Regional de Educação quanto na psicóloga Mary Neide Figueiró mais um alerta. A professora da universidade, com larga experiência na oferta de palestras e cursos sobre sexualidade na adolescência, acredita que, de uma forma geral, os docentes do Estado estão mal capacitados. A coordenadora de Ciências e Biologia do NRE, por sua vez, estima que, somente 20% do total de cinco mil professores do quadro do núcleo teriam interesse e potencial para tratar do tema com desenvoltura na sala de aula.
Mary Neide coordena um projeto para capacitação de professores que, inclusive, já foi aproveitado pelo NRE. Grande parte dos alunos presentes nas palestras da psicóloga são professores do Estado, ávidos por mais informações sobre sexualidade entre adolescentes. Na maior parte dos casos, o que eles querem evitar é a surpresa de serem interrogados sobre o tema no meio de uma aula que, teoricamente, não deveria despertar nenhum tipo de interesse ou curiosidade sobre sexo. A ressalva da psicóloga é de que o assunto pode, sim, surgir a qualquer momento.
''Sei de um caso em que, no meio de uma aula de matemática, um aluno perguntou para a professora se as praias de nudismo existiam de fato. A professora disse que sim e, quando explicava como estas praias funcionavam, um menino comentou que não poderia ir até uma delas porque iria ''dar trabalho''. Como resposta, a professora disse que ''com aquela minhoquinha, ele não daria trabalho nenhum'. Não foi a forma mais adequada de responder'', pondera. Para Mary Neide, situações como esta devem ser aproveitadas pelos professores para que um bate-papo aberto e tranquilo seja promovido em sala de aula. Neste ambiente é que os adolescentes costumam se soltar e perguntar, tendo então a chance de esclarecer dúvidas sobre informações que provavelmente já tenham recebido em outros lugares.
Ainda na avaliação de Mary Neide, um dos obstáculos a ser vencido para a capacitação dos professores é o preconceito dos próprios profissionais quanto ao tema. Nichos como religião e tabus, muitas vezes, impedem que assuntos como sexo sejam tratados com naturalidade pelos docentes. ''Outras pessoas acreditam que aulas deste tipo só instigariam a curiosidade dos alunos e os levaria à iniciação sexual precoce. O que as últimas pesquisas sobre o tema revelam, no entanto, é justamento o contrário. Quanto mais bem orientado e embasado sobre o tema, mais responsável o jovem se torna'', destaca.
Alheios à toda discussão, os jovens destacam a opinião já manifestada pelo hebiatra Walter Marcondes, de que a decisão sobre quando iniciar a vida sexual é deles próprios. Uma posição que, para Mary Neide, não implica exatamente em erro. ''Os adultos devem sempre ser procurados em caso de dúvidas, mas a decisão realmente cabe a eles. Os pais, professores e amigos devem orientar sobre os riscos de gravidez e de DSTs, levantando questões que vão ajudar os jovens a pensar na decisão. E mais importante do que fazer sexo, o adolescente precisa entender que a relação consiste na troca de carinhos e na construção de relacionamentos. Com o sexo, não se pode perder nada, se ganha. Sexo é diálogo, expressão e vivência do amor''.(A.L.)





