Costumam definir o historiador, jocosamente, como um profeta do passado. Nada impede, contudo, que ele pense as perspectivas para o futuro próximo, baseado em tendências claramente delineadas na história que analisa. Pensar os movimentos sociais no século que se abre exige, nesse sentido, que seja cotejada a trajetória desses movimentos no século que se encerra e a pauta que será herdada pelo próximo período.
Falar em movimentos sociais é se deparar com fenômenos complexos e conceitualmente polêmicos. Entretanto, não me parece nenhum exagero afirmar que, no século que se encerra, alguns dos mais representativos movimentos sociais verificados no Paraná tiveram a questão agrária como tema e o campo como palco.
A questão agrária foi, em condições próprias de cada época e de cada região, um ponto permanente de tensão. Podem ser citados, entre os mais importantes movimentos, a Guerra do Contestado (década de 1910), a guerrilha de Porecatu (início da década de 50), o levante dos colonos no Sudoeste (meados da década de 1950) e, da década de 1980 para cá, o movimento dos trabalhadores rurais sem-terra. Ainda que a questão agrária não fosse o carro-chefe, não se pode esquecer do movimento de sindicalização dos trabalhadores rurais, verificado principalmente, na década de 1960.
Ao longo de todo o Século 20, foram significativas as transformações estruturais ocorridas no Paraná. Apenas para ficar em um período mais recente, constata-se que ocorreu a modernização do campo e acentuou-se o processo de urbanização, mas esses fenômenos, longe de promoverem a superação da questão agrária, a recolocaram em outro patamar. No encerramento do século, a reforma agrária é a reivindicação que aglutina o principal e mais organizado movimento social do Estado, o MST.
E os movimentos sociais urbanos? Não pretendo menosprezar sua existência no curso do século, muito menos o seu papel na conjuntura próxima. É forçoso constatar que existe um entrelaçamento de temas. Como se sabe, não é possível dissociar a maioria dos problemas urbanos –como o desemprego, violência, saturação de equipamentos sociais, falta de infra-estrutura, de moradia etc– da questão agrária. A rigor, existe íntima relação entre as reformas agrária e urbana.
A força da questão agrária, alavancada pelo MST, coloca, ainda, matizes de natureza ideológica. Vive-se um período do primado do pensamento neoconservador, em que os projetos e as práticas de esquerda perderam terreno e influência social. Não faz muito tempo, declararam que a história tinha chegado ao seu fim, entendido como o reinado do liberalismo e impossibilidade de superação do capitalismo. Em uma conjuntura como esta, a presença do MST denuncia não apenas as contradições sociais, realimentadas pelo processo de modernização econômica, como constitui-se em um campo de contraposição à hegemonia do chamado neoliberalismo.
Se não é possível visualizar qual vai ser a dinâmica dos movimentos sociais paranaenses no próximo século, pode-se afirmar, sem medo de cometer disparate, que a conjuntura histórica próxima estará influenciada, com tudo que isso representa, pela questão agrária.
- Reginaldo Dias é professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá (UEM)

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