Quando o peão Davi Machado, de Umuarama, chegava num rodeio, já queria saber qual era o boi duro, animal temido na arena, considerado de difícil montaria. Depois do acidente que o deixou em coma, esse ideal de montaria foi vencido pelo valor que o rapaz de 35 anos dá à própria vida.
Davi monta desde os 16 anos de idade, tendo começado a treinar em fazendas da região. Em 1983, o peão passou a fazer montarias em rodeios oficiais.
O boi Shaolin, que o nocauteou, ainda levanta poeira em sua lembrança do acidente, que aconteceu na momento em que abriram o brete.
''O bicho deu três pulos, puxou a cabeça. Vi que o chifre dele ia bater no meu olho, mas consegui me livrar. Só me lembro do estalo na hora da pancada na cabeça. Senti alguém me carregando. Então não vi mais nada. Fiquei um dia em coma. Foi preciso fazer uma reconstituição da minha orelha, que ficou pendurada'', conta Davi.
Há pouco tempo, o peão parou de tomar remédios. No início do tratamento sentia fortes dores de cabeça, chegando a desmaiar.
Ganhador de 20 motos em competições, além de vários prêmios em dinheiro, Davi voltou a montar. Dores no braço o tiraram da arena, novamente, por dois anos.
Peões que fazem fama também ganham muito dinheiro, que o ajudam a atravessar os dias em que está fora da arena. Davi diz que os que conseguem projeção chegam a colocar no bolso, anualmente, cerca de R$ 50 a R$ 70 mil.
''Tem gente que vive de ilusão. Peão tem muito gasto, precisando colocar tudo do seu bolso para participar de competições. Se você não estiver ganhando rodeio não terá futuro. Se fica dois meses sem ganhar prêmio, a coisa fica feia'', avalia.
Os médicos chegaram a dizer que Davi não montaria mais após o acidente, mas um tempo depois, o rapaz conseguiu ganhar um rodeio.
''Desde que caí do boi parece que não sou mais eu. Algo está diferente. Antes do acidente tinha mais agilidade. Fiquei um pouco lerdo. Do período em que permaneci em coma lembro que via o que estava acontecendo, mas não tinha como fazer contato com as pessoas. Sentia o meu corpo leve. Não me recordo de mais nada. Porém, Deus provou que era maior e me deixou vivo e pude reconstruir e recuperar tudo o que perdi. Antes, queria montar o boi que estava na moda. Hoje, ao perceber o perigo, trato logo de ir pulando do animal'', afirma o peão, que diz não ter visto mais o boi que o derrotou na arena. Sabe apenas que o animal foi aposentado dos rodeios.
Respeito pelo animal é um dos limites a partir do brete. Um acidente grave pode se tornar um obstáculo a mais entre o peão e o boi.
''Ao querer voltar para os rodeios todos os peões que se acidentam têm medo, principalmente se ficar parado muito tempo. O bicho é bruto, mas a minha vontade de estar lá montando era maior. Não dá para dizer onde é o nosso limite. Não temos como saber a hora que vai machucar. O limite é o chão'', conclui Davi.

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