Para índios, desnutrição não é doença
Enfrentar o problema da desnutrição em crianças indígenas tem suas peculiaridades. Não basta distribuir cestas básicas ou orientar as mães. É necessário respeitar a cultura indígena para que as ações de saúde tenham sucesso, mas isso acaba dificultando, e muito, a atuação dos agentes.
No posto de saúde da reserva do Apucaraninha, as crianças são pesadas e tem um gráfico de acompanhamento do seu desenvolvimento. O problema é que a desnutrição não é considerada uma doença pelos índios. ''Eles não tem noção exata do que é desnutrição, para eles isso não existe. Mesmo se a criança está com diarréia, a mãe fala que ela está bem'', explica Marlene.
Baixo peso e fraqueza não significam muito se as crianças estão sendo alimentadas e estão brincando. ''Se a criança tem algum mal estar, chegando até a desmaiar, o índio interpreta isso como a 'doença do susto', que não é caso para o médico do posto de saúde, mas para o 'cuiã'. Quem cura o 'susto' é o benzedor'', conta.
Nem mesmo o pré-natal entre as gestantes, que poderia evitar o nascimento de crianças abaixo do peso e, consequentemente, a desnutrição, é considerado importante. Muitas vezes, a gestação é ''descoberta'' pelos agentes de saúde nas visitas periódicas que fazem pela reserva, mas quando já está avançada, com a barriga despontando. Caso de Mariana, de 14 anos, que não sabe há quanto tempo está grávida. Só nessa semana a enfermeira do posto de saúde, Rosana Câmara, soube da gravidez, quando esteve na casa dela para orientar sobre tratamento para verminose. ''Só agora vai ser iniciado o pré-natal'', confirmou.
O caso da família de Mariana e da mãe, a índia Benedita Vergília, ilustra bem o que acontece na reserva. Benedita não sabe a própria idade, vive com sete filhos em uma casa de pau-a-pique, o tipo de moradia comum na reserva, e a filha mais velha também está grávida. Nas refeições, arroz e feijão alimentam a família. Um porco de estimação, chamado ''fio'', divide espaço e comida, e não se cogita a hipótese de utilizá-lo como alimento. A família é considerada em situação de risco, porque já teve casos de desnutrição entre as crianças, e por isso recebe uma cesta básica por mês. Mas que dura no máximo três dias.
''A cultura do índio, de compartilhar, faz com que o alimento seja dividido entre toda a família e por isso uma cesta acaba em três dias. O problema é que aquele complemento alimentar não vai ser só para aquela criança que precisa'', avalia a antropóloga, se referindo ao programa de suplementação alimentar da secretaria de Assistência Social, que distribui cestas básicas elaboradas por nutricionista, com inclusão de leite, para crianças em situação de risco nutricional. (C.P.)





