Gilles Lapouge
Agência Estado
Jean-Claude Guillebaud pertence à nova geração de pensadores. Atualmente, trabalha como editor e escritor, e se dedica à reflexão histórica ou geopolítica.
Agência Estado – O século que está terminando...
Jean-Claude Guillebaud – O século? Não. Este século terá sido muito denso, mas muito curto. Um século de 75 anos. Ele se estende de 1914 a 1989. Foi inaugurado por um ‘‘tiro de revólver’’, disparado no dia 28 de abril de 1914 em Sarajevo e que desencadeou a Primeira Guerra. Terminou no dia 8 de novembro de 1989 com o golpe de picareta que atacou o Muro de Berlim e assinalou a implosão do Comunismo.
AEA História então amontoou 100 anos num espaço de 75. Foi preciso abarrotar este tempo?
Guillebaud – Abarrotá-lo sim, mas com coisas pavorosas. A Primeira Guerra é ao mesmo tempo o início deste século e também sua matriz infernal. Todas as tragédias posteriores nasceram ali, na lama, na podridão, nas trincheiras e nos cemitérios.
AEEste é o início. Mas, e o fim? Depois da queda de Berlim?
Guillebaud – – Há dez anos mergulhamos na deploração. Avançamos recuando, como se quiséssemos fazer uma contabilidade macabra de um dos períodos mais assassinos de toda a História: as matanças deste século são gigantescas. Mas não existem apenas estes rios de sangue. Existem outros prantos, outro luto. O cortejo fúnebre de algumas formas da História. Cada uma das tragédias nascidas de 1914 teve como efeito desativar os diferentes componentes do otimismo que nos veio do Século 18 (o Iluminismo) ou do 19.
AE – O Comunismo?
Guillebaud – O desastre comunista desqualifica, desativa a esperança em um mundo igualitário e, ao mesmo tempo, a crença no progresso ininterrupto. Arruína o otimismo histórico. O Nazismo desqualifica a vontade histórica, desativa o orgulho prometéico do Homem, a crença na possibilidade radical de ação sobre a História e marca a falência do voluntarismo absoluto do qual Hitler era o profeta.
A a religião?
Guillebaud – É mais complicado. Os dois totalitarismos são radicalmente anti-religiosos. Mas o Cristianismo, como outros monoteísmos, não sucumbiu a este século. Embora na imprensa (francesa por exemplo) se respire um forte mofo anticlerical, quase anti-religioso, multiplicam-se ao mesmo tempo sinais de um retorno ao espiritual. Uma necessidade de religiosidade se espalha sobre o vazio das sociedades, sobre o luto da modernidade. Este movimento é discordante e, às vezes, pernicioso.

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