Para encontrar o pote de mel
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 29 de julho de 2008
Rafael Urban<br>Equipe da Folha 
Nicole Lima queria apenas um sanduíche. Foi o que pediu à atendente: um sanduíche. Pouco depois, ficou maravilhada com um anúncio em A4. Por meio dele, descobriu que ali, entre pães, mesas e um balcão, existe uma pequena biblioteca. Apesar de diminuta, a idéia que a acompanha é grandiosa. Pegue um livro, devolva quando quiser. Não pede cadastro, tampouco cobra multa. Aliás, no carimbo reproduzido em cada um dos 70 volumes, encoraja que se passe adiante. Quanto ao nome, ele é simpático e foi adquirido da panificadora que a recebe: Biblioteca Pote de Mel.
No dia da descoberta, Nicole, que é fotógrafa e trabalha na Rua Conselheiro Araújo, a mesma da panificadora, levou consigo Luz de Agosto, de William Faulkner, e O Evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago. Este último não estava entre os 56 títulos do começo dessa história, no dia dez de julho.
Na internet, vi uma discussão sobre uma biblioteca no Japão que não pedia cadastro e pessoas falando que isso não funcionaria aqui, pois os livros não seriam devolvidos. Eu aposto que funciona. A fala é do proponente, o jornalista e blogueiro inveterado Alessandro Martins, 34 anos, que, como custo administrativo despendeu, apenas R$ 40 para fazer o carimbo. Poucos dias antes havia falecido o seu pai, João Francisco, que lhe deixou alguns volumes. Escolheu outros de sua própria coleção e levou a idéia para Carlos Lazzaris, o dono da panificadora que freqüenta todas as manhãs.
Achei a idéia muito boa e topei na hora. Até já emprestei uns livros, comenta Lazzaris, 39, que promete devolvê-los. Aberta em uma quinta-feira, com 56 títulos, as primeiras doações chegaram no domingo pelas mãos de Rubião Almeida Barros, 70 anos. Ele, além de advogado aposentado, é sogro de Lazzaris e tem em sua casa mais de mil livros.
Para a Pote de Mel, levou nove volumes e afirma que, para breve, vai disponibilizar mais dez. Sempre doei para os Faróis do Saber, mas achei essa idéia mais dinâmica. Barros entende que o espaço tenha limite para cem livros.
A greve dos Correios não atrapalhou a chegada de três volumes que vieram por Sedex do Rio Grande do Sul. A repercussão interestadual vem do blog de Martins (www.alessandromartins.com), que recebe quatro mil visitas diariamente. Mas não quero que pare aqui. Espero ver outras iniciativas como essa nascerem. Ele diz que é fácil e explica como nesta página.
Os mais de mil clientes que passam diariamente pela Panificadora e Lanchonete Pote de Mel se mostram curiosos. E ficam olhando, perguntam se podem mesmo levar para casa. Um deles disse que não vai devolver um livro, mas contou que vai trazer três para deixar no lugar, comenta Lazzaris.
A boa idéia ganhou formato improvisado. Os 70 volumes da coleção, contados entre aqueles que permanecem e os que já se foram, ficam dispostos em caixas que antes abrigavam laranjas sobre um balcão que estava fora de uso. Mas, em breve, ela deve ganhar estante nova. A promessa é do dono da panificadora de nome sim-
pático.
Serviço:
Panificadora e Lanchonete (e Biblioteca) Pote de Mel
Rua Conselheiro Araújo, 168, Centro
Aberta de segunda a sexta-feira, das 6h20 às 20 horas
Aos sábados, das 7 às 18h30
Aos domingos, das 7 às 14 horas
Outras informações: 3262-0629 ou no site www.panificadorapotedemel.com.br


