Gina de Azevedo Marques
Correspondente em Roma
Agência O Globo
Eles usavam manta, chapéu e caminhavam com um bastão. Acessórios indispensáveis para os que no fim da Idade Média peregrinavam dias ou meses até a cidade com a esperança de um lugar no paraíso. Já se vão sete séculos desde o primeiro Ano Santo católico. A tradição continua, mas os costumes mudaram. Ninguém precisa mais ir até Roma. Com ajuda dos satélites, todos podem estar ligados no maior evento religioso de todos os tempos: o Jubileu 2000, que será aberto pelo Papa João Paulo II amanhã, véspera de Natal.
A palavra jubileu tem origem hebraica no Antigo Testamento: deriva de júbilo e exprime o conceito de jóia como alegria. Em hebraico, yovSl era o corno de Áries que soava como uma trombeta a cada 50 anos para marcar o início de um ano sagrado. Naquele ano, escravos eram libertados, dívidas canceladas e campos não eram cultivados para que a terra repousasse.
Baseado na tradição, o papa Bonifácio VIII criou em 1300 o primeiro Jubileu Católico. Para celebrar o ano de perdão e renovação, os fiéis iam a Roma. No início, o Jubileu se renovava a cada cem anos; depois, a cada 50. Atualmente, a cada 33, idade da morte de Cristo. Este ano, ele é especial por lembrar os 2.000 anos de Jesus.
Tudo começa com a abertura da Porta Santa, ritual que simboliza a entrada num período de reflexão. A pesada estrutura em bronze fica à direita da Basílica de São Pedro. A porta será mantida aberta durante todo o Ano Santo.
Dois desafios moverão a Igreja no próximo ano. O primeiro é aprofundar a aproximação com as outras religiões – movimento já intenso em direção a ortodoxos e protestantes. Planeja-se, por exemplo, reunir os grandes chefes de religiões monoteístas (cristianismo, judaísmo e islamismo) no Monte Sinai, onde Moisés recebeu a Lei de Deus. Em março, o Papa fará uma histórica visita a Jerusalém.
O segundo desafio é obter dos países ricos o compromisso de anular ou reduzir a dívida externa que sufoca a dignidade e o desenvolvimento da população em 41 países pobres, especialmente na África. De novo, perdão é a palavra.
O Jubileu 2000 tem programados mais de cem eventos até 6 de janeiro de 2001. Segundo o jornal ‘‘Osservatorio Laico’’, 40 celebrações reunirão de 300 mil a dois milhões de pessoas. Em 12 de fevereiro, Dia do Pedido de Perdão, o papa reconhecerá erros e injustiças cometidos pela Igreja no passado, como o uso da força para impor a verdade; entre 15 e 20 de agosto, a Jornada Mundial da Juventude levará 28 mil ônibus de fiéis à capital italiana. No dia 31 de dezembro de 2000, João Paulo II estará à frente da vigília de passagem ao novo milênio.

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