Palavras de quem sabe
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 20 de abril de 2009
Diogo Cavazotti<br>Equipe da Folha 
Maria Aparecida da Silva, mais conhecida como Yayá, tem 83 anos. Quando completou seis décadas de vida, entrou em depressão. Foi levada pelos filhos até um médico especialista. Meses depois começou a frequentar um grupo de apoio a idosos. Não demorou muito para Yayá se sentir bem e hoje revela que está muito melhor do que quando tinha menos de 60. No aniversário de sete décadas, uma grande festa foi realizada para comemorar a nova idade. As lembrancinhas para os convidados eram pequenas cestas com novelos de lã. Aos 80, o encontro teve como tema uma das grandes paixões da aniversariante: o Coritiba Futebol Clube. Balões brancos e verdes anunciavam o amor de Yayá pelo Coxa.
Quando era pequeno, Adilson Paulo Smaniotto, 69, morava atrás do Cine Morgenau, na época que o local exibia filmes recomendados para toda a família. Ele lembra dos tempos áureos em que conheceu a esposa, há muitas décadas. Hoje considera que vive como um adolescente. Sai com os amigos, participa de rodas de samba com os "velhinhos da noite", viaja, dança e vai em partidas de futebol. Há seis anos ocorreu algo inusitado na vida de Adilson. "Nunca pensei que, em minha vida, fosse acontecer de amar outra pessoa novamente, depois de ficar viúvo aos 63 anos".
São histórias verídicas como estas que integram o livro "Envelhecer é", feito por 13 idosos que participam de atividades na Unidade de Atenção ao Idoso "Ouvidor Pardinho". A coordenação do trabalho ficou por conta da fonoaudióloga Giselle Massi e da psicóloga Regina Célia Celebrone Lourenço.
O projeto começou há três anos, quando Giselle desenvolvia um trabalho voltado para a voz de pessoas da terceira idade. Foi quando percebeu que eles não queriam tratar da voz no lado orgânico e fisiológico, mas sim gostariam de contar as histórias das próprias vidas.
Em 2006 o grupo escreveu um livro sobre as memórias da infância. No ano seguinte a publicação abordou as músicas que marcaram a vida deles. Agora chegou a hora de lançarem o livro que fala sobre o significado do envelhecimento para cada um.
"Fizemos vários textos sobre o que é envelhecer. No segundo semestre cada autor escreveu um pouco do próprio processo de envelhecimento", explica Giselle. Cada um aborda o assunto de acordo com as próprias questões, com os ganhos e perdas que a chegada da terceira idade ocasiona. São lembranças do dia que completaram 60 anos e alguns fatos inesquecíveis no decorrer da vida. "Eles falam muito da importância de escrever, pois dizem que é uma forma de se sentirem imortalizados. As pessoas que não irão conhecê-los, como alguns netos e bisnetos, poderão ter acesso à história que viveram.
A psicóloga Regina Célia Celebrone Lourenço explica que o mundo vive um momento social onde tudo que é velho é descartado. O culto ao corpo e o fato de acharem o novo sempre melhor torna o envelhecimento mais difícil. "Quando alguém faz 60 anos descobre que já está na terceira idade. O corpo já não corresponde ao que é visto na mídia. A auto-estima é afetada", explica a profissional.
O trabalho resgatou a lembrança dos participantes como os sonhos da infância, na época que alguns moravam na roça e eram proibidos de ler determinadas publicações. Não era raro se emocionarem durante o processo.
Algumas passagens mais dramáticas relatam a época da escola, onde tinham medo da professora e não era raro ficaram ajoelhados no milho por motivos banais. A escola não era um prazer mas sim um tormento vivido todos os dias.
Em uma das passagens do livro, um participante se emocionou ao relatar a época que ficava horas esperando a mulher amada sair do trabalho. "Ele chorou ao lembrar o quão apaixonado era", recorda Regina. Hoje o personagem é viúvo. Na maioria dos casos, eles gostariam de voltar no tempo e retomar os estudar para escrever livros mais cedo.
Serviço
Livro "Envelhecer é"
Organizadoras: Giselle Massi e Regina Célia Celebrone Lourenço
Autores: Adilson Paulo Smaniotto, Arlete Brasil, Elba de Ataíde Schelbauer, Gervásio Mallmann, José Caetano Cavalheiro, Leonora da Silva Mallmann, Maria da Aparecida da Silva (Yayá), Matilde Pedro Teixeira, Mirian Midori Garcia, Terezinha Alves Borges, Themis Villa Nova Negrão, Yugi Takii e Waldomiro Valentino Borges
Unidade de Saúde Ouvidor Pardinho (Rua 24 de Maio s/nº, esquina com Avenida Iguaçu).
Telefone: 3321-2747


