Arquivo Folha




Uma outra mentalidadePlantio do café adensado atrai
produtores por causa do preço;
Na foto superior, o chefe do escritório
da Emater em Londrina, Nilson
Ladeia Carvalho: competitividade
preocupa o homem do campo

Muita terra, pouco aproveitamento; pouca terra, excelente aproveitamento. É possível tirar renda para sustento familiar e como atividade econômica de uma área de 5 alqueires, desde que o produtor rural esteja disposto a arregaçar as mangas e planejar a agropecuária, como se a propriedade fosse uma empresa. O dono da fazenda ao lado, de 500 alqueires, pode ter renda menor na propriedade do que o minifundiário vizinho e ainda correr o risco de ter suas terras invadidas.
O perfil da agropecuária londrinense pouco ou nada difere do de outras regiões do Estado. Há bons e maus produtores repartindo a cerca das propriedades rurais. Há os que baseiam a atividade em crendices, outros vão atrás de tecnologia. Um bom número relaxa por falta de recursos para adequar o sítio ao sistema empresarial, enquanto alguns desmazelam por ter o alqueire de terra apenas como um capital.
Mas o chefe do escritório da Emater (empresa de assistência técnica e extensão rural vinculada à Secretaria da Agricultura e do Abastecimento do Paraná) em Londrina, agrônomo Nilson Ladeia Carvalho, diz que já começa a predominar entre os agropecuaristas londrinenses certa preocupação com a globalização, os blocos econômicos como o Mercosul e, consequentemente, com a necessidade de profissionalização da atividade agropecuária para poder concorrer em igualdade de condições com produtores de outros países.
Com base em balanço dos atendimentos feitos pelo escritório londrinense da Emater neste ano, Ladeia afirma que esta preocupação está levando ao órgão maior número de pessoas interessadas em adotar tecnologia apropriada para produzir. O maior número de atendimentos em 97, segundo o agrônomo, foi em relação ao café. O bom preço do produto - média de R$ 200,00 a saca de café limpo, nas últimas semanas - contribui para o aumento no número de interessados pela cultura.
Mas é positivo o fato de cerca de 70% dos que têm procurado informações já terem lidado com a cafeicultura. As orientações solicitadas aos técnicos são, principalmente, em relação ao sistema de plantio adensado e à expansão da área ocupada pela lavoura na propriedade. Isso, em hipótese alguma, significa que o café volte a dar a Londrina o título de ‘‘Capital Mundial do Caf钒, afirma Ladeia. O município já chegou a ter cerca de 12.500 alqueires de sua área agricultável tomada pela cafeicultura. Atualmente, apesar do plantio adensado, as lavouras de café ocupam cerca de 1.700 alqueires do solo londrinense, com previsão de expansão de 10%.
Outra mudança verificada em 97, segundo Ladeia, é o maior número de procura por financiamentos rurais. O agrônomo explica que o Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf), com juros de 6,5% ao ano, estimulou os pesquenos agricultores a recorrerem aos empréstimos tanto para o custeio das lavouras quanto para os investimentos necessários à atividade.
A ocorrência, no entender do agrônomo, é prova de que alguns produtores têm a intenção de tecnificar a agricultura ou a pecuária que desenvolvem, visando a profissionalização, desde que tenham recursos. Assim, também a soja, cultura mais adequada para agricultores de perfil médio para cima e que exige adoção de técnicas, deve avançar na próxima safra sobre cerca de 10% da área do milho, impulsionada pelo bom preço. A soja deve ocupar, segundo estimativas da Emater, cerca de 10.300 alqueires, ficando o milho com área estimada de 8.200 alqueires.
O mais positivo dessa mudança, diz o técnico, é a expansão no número de propriedades onde a tecnologia do plantio direto está chegando. ‘‘Hoje o pensamento do produtor é o plantio direto para segurar a terra e não mais a construção de terraços.’’ É fundamental também, informa Ladeia, a ampliação do leque de opções para o produtor rural, com possibilidade de profissionalização da atividade através da diversificação na propriedade.
Fruticultura, olericultura e pequenas criações começam a fazer parte dos planejamentos, além da busca de especialização de um dos segmentos na área da floricultura. O algodão, que na safra passada de verão deixou de ser plantado, está reaparecendo devido ao preço e à mudança na política de taxação do governo federal para o produto que vem de fora.
O empresário rural e agrônomo Ywao Miyamoto é outro que insiste na necessidade de profissionalização do homem do campo. Ele também é favorável à diversificação e à busca de sustentabilidade, em que uma atividade do sítio dê amparo para outra, formando uma cadeia. O milho, por exemplo, alimentaria as criações, que dariam esterco - ou cama de frango - para o café.
‘‘Londrina não tem fazendeiros de grandes áreas. Os que tinhas dividiram suas terras entre os herdeiros, que por sua vez vão redividir para seus filhos’’, diz Miyamoto. A agricultura londrinense, portanto, apresenta um horizonte de esperanças, mas o que precisa ser avaliado é a maneira como ela deve ser executada. Nesse aspecto, avalia o empresário, o que falta é planejamento.
Ele menciona que, numa propriedade de 20 alqueires, o agricultor com certeza vai encontrar uma área onde não ocorram geadas e seja possível o plantio de café adensado. ‘‘Essa orientação seria papel, talvez, da Secretaria Municipal de Agricultura e Desenvolvimento. Como agrônomo, eu sempre orientei o proprietário rural no sentido de que ele tivesse uma visão de administração rural, e não apenas quanto aos aspectos técnicos das lavouras. A técnica, pelo contrário, é parte da administração rural.’’
Um dos exemplos mencionados por Miyamoto é o do cinturão verde, em Curitiba. Em franco desenvolvimento e recebendo a cada dia novos moradores, Londrina, na opinião de Miyamoto, deveria ter um cinturão verde fechado para abastecer sua população com verduras e hortaliças produzidas em solo próprio.
O presidente da Sociedade Rural do Paraná, Luiz Roberto Neme, é mais otimista. No entender dele, a agricultura londrinense é forte, com alta produtividade do milho, inclusive. Quanto ao café adensado, Neme diz que ainda há necessidade de cuidados por parte de quem optar pela lavoura. ‘‘A geada ainda é um risco, mas o café tem como fundamental a geração de mão-de-obra no campo.’’

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