Paixão de Cristo mobiliza comunidades
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quinta-feira, 05 de abril de 2007
Fábio Galão<br>Equipe da Folha 
Há vários anos, as encenações da Paixão de Cristo na Sexta-Feira Santa são tão tradicionais em Curitiba quanto as procissões do Senhor Morto. Logo após o fim do Carnaval, centenas de pessoas, em diferentes comunidades da capital paranaense, aceleram os preparativos para os espetáculos, que vão de apresentações humildes a grandes produções.
Até atingir uma certa estabilidade (hoje a Fundação Cultural de Curitiba patrocina algumas encenações), esses grupos precisam driblar a falta de recursos com criatividade. No nosso primeiro espetáculo, usamos as lanças do portão da casa da minha avó para fazer as armas dos soldados. Pegamos as lanças e as colocamos na ponta de pedaços de bambu, conta Everson Bastos de Barros, presidente da associação cultural Exodus, que realiza todo ano a encenação da Paixão de Cristo na Paróquia Nossa Senhora das Graças e Santa Gema Galgani, no Barreirinha.
O espetáculo era uma apresentação pequena, cerca de 30 pessoas compunham a equipe. A reviravolta que culminou no espetáculo atual, que mobiliza 300 componentes, entre produção e atores, começou em 2000, único ano em que a apresentação não ocorreu. O pessoal nos cobrou muito porque não teve encenação. Era uma coisa pequena, mas importante para a comunidade. Voltamos no ano seguinte, desta vez como grupo Exodus. Continuamos trabalhando com o pessoal da comunidade, mas hoje pelo menos metade da platéia é de gente de fora, explica Barros.
Na nova fase, a comunidade continua empurrando o espetáculo. Em 2002, começou a chover no horário da encenação e o padre anunciou que a apresentação estava cancelada. Mesmo assim, o povo não foi embora. Aí decidimos tocar o espetáculo, com chuva do começo ao fim.
Nesse esforço conjunto, laços familiares são realçados e histórias de vida se cruzam. O eletricista Leandro Gonçalves, de 24 anos, e a dona de casa Anelyz Nagakura Gonçalves, de 23, se conheceram nos ensaios para a encenação da Paixão de Cristo do Exodus. Eu já morava na comunidade e o Leandro veio convidado por um amigo. Nos conhecemos, começamos a namorar e estamos casados desde 2003, relata Anelyz.
O encarregado de logística Paul Jackson de Almeida, de 25 anos, entrou para o grupo Ágora (que realiza encenações da Paixão de Cristo na Paróquia Nossa Senhora Aparecida, no Uberaba) convidado por uma amiga, que depois se tornaria sua namorada e mulher. Em breve a nossa filha, que hoje está com oito meses, deve participar das apresentações do grupo, comemora Almeida.
O analista de tecnologia da informação Lindon Carlos Pecile, de 40 anos, que este ano interpretará Pedro na encenação do grupo Lanteri, na Pedreira Paulo Leminski, conheceu a mulher durante ensaios da companhia para outro espetáculo. Eu a conheci durante a preparação para uma apresentação que fizemos de Júlio César, de Shakespeare. Agora já vão 13 anos de casamento e dois filhos. O mais velho, Gabriel, de 11 anos, vai atuar pela primeira vez na nossa encenação da Paixão de Cristo. Ele será o menino que traz o pão e os peixes para Jesus multiplicar, conta Pecile.
Não raro, os membros da comunidade que participam dessas encenações se tornam celebridades locais. Às vezes me apontavam na rua e falavam, brincando, Olha o Judas!, ri o vendedor Julio Cezar Vaz da Silva, de 20 anos, integrante do Ágora. Curiosamente, após interpretar Judas por alguns anos, Vaz será Jesus Cristo na encenação deste ano.
Judas representa as traições que cometemos contra nós mesmos, contra nossos princípios e contra os outros. Interpretar Jesus é muito diferente, desde os ensaios está sendo uma coisa muito forte, afirma Vaz, que pretende seguir a carreira de ator profissional (já tinha experiência na área antes de ingressar no Ágora).
É uma honra representar alguém em quem o público que vai assistir à encenação deposita a sua fé, diz o professor César Kuzma, de 30 anos, que interpretará Jesus na apresentação do Lanteri.
No mesmo grupo, chama a atenção o caso do aposentado Israel Jaime Reis, de 71 anos, integrante do Lanteri desde 1981: mesmo sendo judeu, ele participa da encenação que simboliza o mistério do cristianismo. Muita coisa bate, entre cristãos e judeus. Aprendi muito sobre o judaísmo aqui. Além disso, Jesus era judeu, explica Reis.


