Paris - O que é que o brasileiro tem? Tem samba no pé, tem. Tem ginga no corpo, tem. Tem a pele morena, tem. E joga bola como ninguém. Desde março desse ano, quando começou o Ano do Brasil na França, dezenas e dezenas de manifestações artísticas e culturais apresentam, e de um modo geral bem, a complexidade do Brasil e a variedade de raças que compõe o seu povo.
Os organizadores de ''Brésil Brésils'' trouxeram tudo que o País tem de bom e de bonito para francês ver: do artesanato rústico das tribos mais longínquas da Amazônia até o som de Lenine, passando por mostras de filmes nacionais, exposições, colóquios, conferências e rodas de capoeira, lavagens das escadarias da igreja do Sacré Coeur, não ficando de fora os pais e filhas de santo, nem as fitinhas do Senhor do Bonfim, patuás e badulaques.
Quem gosta de fazer uma boquinha à brasileira está podendo tirar a barriga da miséria: em tudo o que é evento tem sempre um brasileiro vendendo coxinha e pastel, côco verde, os quindins de Iaiá e a célebre caipirinha. No meio de tanto ver, ouvir, sentir, apalpar e provar, era de se esperar que o francês fosse despertado por outros sentidos. Qual o quê. Definitivamente, o que o francês gosta e quer mesmo conhecer de perto está impresso num bolorento cartão de visita: samba, futebol e mulher bonita.
Para o francês que nunca mergulhou a fundo na cultura brasileira, o samba é o nosso hino nacional, executado sem o menor protocolo ao ronco da cuíca e ao ritmo da percussão. Não é novidade para ninguém que a mistura de raças é uma realidade no Brasil: o europeu colonizador, a população indígena, o escravo africano, e mais tardiamente o japonês, o árabe e tantos outros povos pincelaram traços e cores às multifaces dos brasileiros.
O francês que conhece ainda que superficialmente a história mundial sabe disso, porém, no país do presidente Jacques Chirac, o perfil do brasileiro mais difundido, ou melhor dizendo, da brasileira, é o da mulata. O francês se rende ao charme inegável do mulherão Gisele Bundchen nas passarelas, mas ele baba mesmo é pela pele bem acobreada da mulata, busto coberto de balangandãs, brincos de argola, saia de babados, sandália de plataforma, sestrosa e inzoneira como manda o figurino.
Se ela sabe requebrar as cadeiras, aí então é que não tem para ninguém: vai parar o trânsito. E se para completar a mulata diz que veio da Bahia, será um Deus nos acuda, é capaz dela fechar o comércio na avenida Champs Elysées.
Parece exagero, mas não é. A Folha verificou que essa é a imagem mais frequente difundida pela mídia francesa. Há cerca de um mês e meio, uma recente campanha publicitária, uma das lojas mais badaladas de Paris, as Galeries Lafayette, tomou como tema o Ano do Brasil e estampou os outdoors com uma mulata estilizada.
Sorridente, dentes luzindo de branco, vestida de dourado, frutas e flores na cabeça, pernocas de fora, a mulata levanta a saia e samba bonito em cima de um globo terrestre (em alusão a uma bola, como não podia deixar de ser). Um misto da baiana que vende acarajé no Pelourinho com a nossa digníssima Carmem Miranda. Só faltou o abacaxi na cabeça, mas ela tinha lá outras frutas menos pesadas.
Durante a campanha, a loja, onde estão representadas as grandes grifes do planeta, foi toda decorada em verde-amarelo. De tudo o que a loja promoveu, entre as jóias em pedras brasileiras, bijuterias, bolsas, moda praia e artesanato, exposições e até um bar ''à cachaça'', nada fez mais sucesso do que o estande das Havaianas.
Aquelas mesmo, que todo brasileiro arrasta dentro de casa desde sempre, aquelas que não soltam as tiras e não têm cheiro, têm status de estrela na França. Dava gosto de ver as filas formadas por franceses e turistas estrangeiros para levar para casa os nossos familiares chinelos de dedo, que por aqui eles chamam de ''tongs''. O modelo mais barato custava cerca de 20 euros, mas os personalizados podiam sair por quase o dobro.
A mesma loja promoveu também shows com músicos brasileiros, ateliês de forró, samba e capoeira. Entre os artistas convidados (Orquestra do Fubá, Márcia Faraco e Anna Torres), se apresentou também a cantora Márcia Maria, que reside na França há mais de 20 anos. No repertório, os grandes nomes da MPB, com uma queda para a Bossa Nova. Em um bate papo informal com a Folha, a carioca Márcia Maria se ressentiu do tal Ano do Brasil na França.
Segundo ela, os eventos privilegiam mais os artistas brasileiros renomados, como se os que escolheram a França para morar fossem menores. ''Nós, os artistas que vivemos aqui há anos, que trabalhamos e divulgamos a música brasileira, tivemos pouco espaço. O que temos ouvido desde antes de começar o Ano do Brasil é que a agenda estava completa''.
Em Paris, as duas FMs que divulgam música e cultura brasileira, as rádios Pays e Latina, têm levado ao ar várias reportagens sobre o Ano do Brasil. Além da programação normal, as duas rádios convidam os artistas brasileiros que estão de passagem pela França, e também os que estão radicados no país.
A Rádio Latina (www.latina.fr) no seu programa aos domingos (Swing Brasil), das 20h às 22h, toca, como se diz por aqui, um ''mélange'' de tudo. Estão nas ondas do rádio toda a prata da casa como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque, Tom Jobim, João Gilberto, e as divas Gal Costa, Maria Betânia, Marisa Monte, e por aí vai.
De tudo que é música brasileira o troféu da rádio vai mesmo para uma música que nem está entre os grandes sucessos do Chico Buarque: ''Essa moça tá diferente''. A Folha apurou que a canção foi tema de publicidade e caiu no gosto do francês. O resultado é que falou no Chico, não há quem não cante a moça dele.
Por falar em moças, a beleza plástica das nossas moças corre mundo. O perfeição do bumbum empinado à brasileira já foi até matéria de uma revista, que dá receitas de ginástica para quem deseja se igualar.
Contudo, a imagem estereotipada das brasileiras rende comentários deselegantes. A Folha ouviu mais de uma vez de franceses que no Brasil, em se tratando de sexualidade, somos um país que desbanca para a lascividade, e mesmo para a permissividade.
A Folha chegou mesmo a ouvir de um diretor de associação cultural, que é difícil compreender um país que mescla fervor religioso (somos o maior país católico do mundo) com promiscuidade. Isso mesmo, promiscuidade. Do carnaval, então, nem queiram saber.
Quatro dias sem regras convencionais regidos por Baco, período em que ninguém é de ninguém, desfile de mulheres seminuas, e outras definições nuas e cruas. Comentários à parte, passar o carnaval no Brasil faz parte do sonho de consumo de muitos franceses, isso é certo.

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