O agricultor Nicolau Schauff, de 66 anos, morador de Rolândia (25 km a oeste de Londrina), ficou contente com a escolha do cardeal alemão Joseph Ratzinger. ''Ele era o candidato mais preparado'', diz, com a autoridade de quem é de uma família que se relacionou com o novo papa. Nascido em Colônia, na Alemanha, o pai de Nicolau, Johannes Schauff, trabalhou alguns anos para o Vaticano, foi amigo do Papa Pio XII e conheceu pessoalmente o cardeal Ratzinger.
Os pais de Nicolau (a mãe se chamava Karin) vieram para o Brasil para fugir da perseguição política de Hitler, mas voltaram para a Europa em 1950. ''Eles foram direto para Roma, lá meu pai trabalhou em uma organização católica para abrigar refugiados políticos e depois participou da Comissão de Justiça e Paz do Vaticano'', relata. A comissão era formada na maioria por leigos para orientar o papa sobre assuntos não religiosos. ''Meu pai até recebeu uma medalha da Ordem de São Gregório'', orgulha-se.
Quanto ao cardeal Ratzinger, Nicolau Schauff não o conheceu pessoalmente, mas conta que seus pais costumavam sair com ele na Itália. ''Eles me diziam que ele tinha uma linha coerente, mas tradicional. É que na idade mais avançada meus pais ficaram mais liberais'', admite. Falecidos desde a década de 90, Johannes e Karin Schauff foram sempre um elo muito forte para família com a Igreja Católica. Tanto que os dois estão enterrados no Campo Santo Teutônico, próximo à Basília de São Pedro.
Nicolau Schauff veio da cidade de Colônia em 1939 para ajudar a colonizar Rolândia, um dos municípios do Norte do Paraná que conservou a cultura européia. ''Meu pai era deputado federal na Alemanha de um partido de centro, considerado católico na época. Depois Hitler assumiu o poder e dissolveu os outros partidos'', conta Schauff. O agricultor recorda que na época, por volta de 1933, seu pai declarou-se contra a política nazista e foi obrigado a deixar o país de origem.
Como a família era muito católica e tinha vários contatos no Vaticano, decidiu ir para Roma, na Itália. ''Meu pai foi amigo do Papa Pio XII antes dele se tornar pontífice''. Porém, a estadia na Itália acabou quando Mussolini apoiou o alemão Hitler. ''Foi assim que viemos parar no Brasil. Meu pai já tinha comprado terras aqui''. O agricultor conta que cerca de dois terços dos imigrantes eram luteranos e apenas uma pequena parte era católica.
Considerando-se hoje mais brasileiro que alemão, Nicolau Schauff teve uma educação rígida. ''Nós íamos à Missa todos os dias'', relembra. Hoje, a prática do catolicismo é mais branda, mesmo assim Schauff ficou contente com o a escolha do novo Papa, pois acredita que a Igreja deve manter a linha moral. ''Creio que Ratzinger deverá continuar o trabalho do Papa João Paulo II, mesmo porque foi o braço direito dele por anos. Mas, certamente imprimirá um diferencial''.
Apesar de concordar com a mutenção da linha moral do Vaticano, Schauff acredita que o cargo de padre deveria ser aberto às mulheres e que o novo Papa precisa refletir sobre o celibato. ''Um dos maiores sonhos de minha mãe era que um dos filhos seguisse a vida religiosa, porém nenhum dos meus oito irmãos tinha vocação. Eu mesmo não tinha nenhuma para o celibato''. Nicolau casou-se em 1962 na Alemanha e em seguida voltou para o Brasil. Hoje tem cinco filhos e sete netos.

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