Fazer promessa é coisa séria. Pagar o prometido ao santo, ainda mais. Não precisa chegar ao extremo, como "Zé do Burro" que acaba morrendo por querer, a todo custo, entrar na igreja carregando uma enorme cruz de madeira nas costas para pagar uma promessa à Santa Bárbara, em o "Pagador de Promessas", livro de Dias Gomes. Mas o compromisso do personagem serve de referência. Há muitas austeridades que exigem menos da carne, mas que nem por isso deixam de ser um sacrifício. Trabalho solidário e boa conduta também servem como agradecimento pelas graças recebidas.
Foi pela misericórdia da Padroeira do Brasil que a zeladora Ana Corrêa, 56 anos, diz ter sido curada da surdez. "Há 15 anos, depois de muitos exames, os médicos disseram que não havia mais recurso e que eu tinha ficado surda do ouvido direito, precisava usar aparelho. Fiquei tão desesperada e pedi à Nossa Senhora Aparecida que me ajudasse. Chorei muito e fiz minhas preces e, naquele momento, sumiu o ruído forte e o ouvido desentupiu", lembra.
"Fui até Aparecida do Norte, em São Paulo, e subi a rampa do santuário de joelhos para cumprir minha promessa. Sou devota dela desde a infância", disse com convicção dona Ana, moradora do Alto Boqueirão. "Tive água no joelho, que ficava inchado e quase não podia andar. Um problema crônico. Fiz uma promessa e Nossa Senhora me curou também. Já recebi muitas graças", confessa a senhora.
Para a professora aposentada Berenice Sonda, 54 anos, a graça recebida de Santa Rita de Cássia não se resumiu à cura de um câncer de mama. Motivou toda família a buscar a felicidade. "Há 12 anos foi diagnosticada a doença. Fiz cirurgia, sessões de radioterapia e o controle. Até que, em 2006, exames mostraram que o câncer tinha aumentado. Os médicos não sabiam mais o que fazer, disseram para me preparar para o pior", lembrou a professora, que, no final de 2007, iniciou novo tratamento. Ela mora no bairro Vila Hauer, há sete anos, onde fica o santuário que leva o nome da santa.
"Fiz um pedido à Santa Rita pela minha saúde, no dia da festa dela, em maio deste ano", relata Berenice. Há três meses, exames mostraram que o tumor não apresentava mais atividade. "Quando eu saí do médico, peguei a Bíblia para ler o trecho em que uma pessoa pede a cura a Jesus e ele diz: ‘tua fé vai te salvar’. Senti tão forte a presença de Deus naquele momento, porque o desejo dele é que sejamos saudáveis e felizes", concluiu ela, que não conseguiu segurar as lágrimas.
"Deus não manda doença para gente. Fiquei doente num momento ruim da vida, de muitas mágoas. Comecei a abrir mais meu coração e surgiu a oportunidade de retribuir a graça fazendo o acompanhamento de crianças e gestantes da comunidade com a Pastoral da Criança. É gratificante e me sinto cada vez melhor", disse Berenice, ajoelhada diante da imagem de Santa Rita e da urna onde os fiéis depositam centenas de pedidos. "A graça se estendeu a toda família. Os filhos se formaram, acabaram-se as dívidas, estamos mais unidos", completa.

Permissão

A Igreja Católica reconhece a validade das promessas desde que sejam feitas de maneira consciente e madura, sem cair no fanatismo ou na superstição. Segundo o padre Luiz Alberto Kleina, à frente do Santuário de Nossa Senhora do Carmo, no Boqueirão, a promessa é aprovada pela igreja porque ajuda as pessoas a se aproximarem de Deus, a partir
de um sacrifício em busca de
um bem maior.
"A promessa intenciona buscar uma graça, trazendo uma atitude de esperança. Mas o tempo da realização das promessas pertence a Deus. Nem tudo que desejamos é vontade de Deus. A promessa deve ter outra perspectiva, não se resume a uma troca de favores entre nós e Deus", explica. A procura por determinados santos, como Santo Expedito, Santo Antônio, Santa Luzia, São Judas Tadeu e Santa Rita de Cássia - estes dois últimos, denominados das Causas Impossíveis - é
motivada pela religiosidade popular e pela história de vida de cada um deles.
"A igreja pede seriedade das pessoas no cumprimento das promessas e que nunca as façam para que outras pessoas ou parentes as cumpram mais tarde. Isso não é válido. A promessa deve partir da pessoa que teve a intenção, não deve prometer um sacrifício que não possa realizar depois", esclarece padre Kleina. Caso uma promessa não possa ser cumprida por qualquer motivo, precisa pedir ao padre, em confissão, autorização para alterá-la ou então a dispensa. "É importante lembrar que a igreja proíbe simpatias, magia e coisas semelhantes que distorcem o verdadeiro culto que prestamos a Deus", pontua o pároco.

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