Há cerca de 40 anos, uma pessoa com hanseníase era vista como um bicho selvagem. Ninguém a tocava, nem a queria por perto. O medo de ser contaminado pela doença do sangue como as pessoas diziam antigamente era tão grande quanto a própria ignorância dos que a temiam.
A falta de informação era o principal motivo de tanto alarde. A vida dos hansenianos, moradores da região de São Jerônimo da Serra (78 km ao Sul de Cornélio Procópio) começou a mudar quando em 1979, o padre Haruo Sassaki fundou a Sociedade Filantrópica Humanitas, um centro médico de serviço social e reabilitação.
De casa em casa, o padre percorreu a cidade e pequenos municípios da região, em busca de pessoas com a doença para tratá-las. O médico dermatologista, Mauro Filgueiras Mendes, que trabalha na Humanitas desde o início das atividades do centro, lembra até hoje de um caso que o sensibilizou bastante. ''A família de um hanseniano estava assustada e não sabia o que fazer porque não aguentavam mais ver os ratos comerem as pontas dos dedos dos pés do doente, que sem sensibilidade, não sentia nada'', conta.
Hoje, a Humanitas atende mais de 70 municípios diferentes e o número de atendimentos giram em torno de 60 pacientes novos por ano. Esse número equivale a pessoas com vários tipos de doença de pele, como fogo selvagem, câncer de pele, entre outras. Boa parte dos recursos do centro são oriundos da Igreja Católica do Japão. Na Humanitas, os pacientes não pagam nada pelo tratamento, pois é tudo feito pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Na maioria dos casos, os pacientes vão até o centro uma vez por mês. Além dos medicamentos, lá os pacientes encontram profissionais que os tratam com carinho e respeito.
Mendes diz que demorou para as pessoas se conscientizarem sobre a doença. Antes, segundo ele, diagnosticar um hanseniano, era um trauma para toda a família. ''Hoje a sociedade encara com muito mais tranquilidade. O Brasil só perde para a Índia em número de pessoas com hanseníase, mas a doença está esnucada, já perdeu, é só uma questão de tempo, pois a cada ano temos menos casos novos da doença'', salienta o médico.
Morador de Sapopema (132 km ao sul de Cornélio Procópio), seu Miguel Francisco de Almeida, 90 anos, descobriu que tinha a doença em 1981, época em que ainda sofria preconceito. Em 1987, quando passou a ser tratado na Humanitas, o diagnóstico apontou um dos tipos mais graves da doença. Hoje, curado, seo Miguel vai duas vezes por mês até o centro para tratar das sequelas deixadas pela doença - a falta de sensibilidade em parte de uma das pernas e no pé. ''Venho aqui para as Irmãs fazerem os curativos para mim. Não sinto a sola do meu pé. As mãos também foram atingidas, mas não perdi o movimento. Sempre fui muito bem tratado aqui'', conta sorrindo e feliz.

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