''Olha, o que pode ser isso?'' A pedra na prateleira, entre os fósseis, lembra um ovo com milhões de anos. ''Um ovo de dinossauro'', respondo. Ragnhild Borgomanero, uma senhora altiva, de beleza singular aos 75 anos, vestido combinando com o colar, retruca. ''É uma boa cagada de dinossauro.'' Os 90 metros quadrados da sala de estar de sua casa em Curitiba guardam dois mil itens que vão de um vidro romano, passando por uma presa de mamute, diversas gemas até chegar à maior coleção particular de fósseis da América Latina.
Ragnhild mora sozinha na confortável residência de 400 m2. ''Mas não me sinto solitária, sou feliz'', diz. ''A tristeza seria ingratidão. Foi muito bom poder viver com esse homem por 40 anos.'' Guido Borgomanero faleceu em 2005, aos 83 anos. Se conheceram em Oslo, Noruega, em 1963. Ela tinha 30; ele, 42. Nutricionista renomada, Ragnhild nasceu na Alemanha e trabalhou em Paris antes de mudar-se para o país nórdico. ''Sabia que a esposa de um diplomata não podia trabalhar. Mas levei dois anos para entender que o dinheiro que gastava não era do próprio suor.'' Casaram-se em 1966, o que obrigou Ragnhild a abrir mão de sua profissão.
Guido, nasceu em Cesenatico e foi cônsul geral da Itália para o Paraná e Santa Catarina entre 1974 e 1984, época em que o casal veio para Curitiba. Violinista amador, gravou mais de 300 obras em fita magnética. Entre textos de temáticas variadas - de ''Gli auguri a Collor'' a ''Nel mondo dei dinosauri'' -, escreveu a série de artigos intitulada ''As Gemas''. Os 18 textos foram digitalizados pela esposa, que também fez curso de Photoshop para tratar as fotos de memórias do casal e agora estuda Premier, programa de edição de vídeo, para juntar as fotografias com o áudio que ela gravou do esposo. No prefácio que abre a série de textos sobre as gemas brasileiras, Guido explica como o vírus que chama de ''doença da pedra'' o atingiu.
''Relembro nitidamente o rigorosíssimo inverno longínquo de 1927 em Trieste (Norte da Itália) quando, acamado com febre durante várias semanas por efeito de uma bronquite aguda, a minha saudosa mãe, na tentativa de me distrair, mostrava-me uma velha enciclopédia ilustrada.'' Guido segue o texto lembrando do momento quase mágico. ''E eis que, entre as páginas dedicadas à letra 'M' (Minerali), apareceu de repente uma colorida apresentando as diferentes variedades de pedras preciosas em estado bruto. Fiquei como que deslumbrado! E nos dias seguintes sempre pedia à minha progenitora que me explicasse, com todos possíveis detalhes, aquela parcela de mundo encantado que tão profundamente despertara a minha imaginação.''
Não apenas a sua, mas de toda a sua família, alcançando depois o interesse de seu filho, Alessandro, e o neto Leonardo, nascido em 2002. ''Quando eu tinha dez anos, fomos a uma mina de esmeraldas em Itabira, Minas Gerais. Garimpei com as minhas próprias mãos uma pequena esmeralda'', recorda o filho, Alessandro, 40. Do pai, herdou a paixão pela música erudita e hoje é solista de orquestras sinfônicas no Brasil e no exterior, e toca com dois violinos italianos que pertenceram a Guido: um Balestrieri e o outro um Goffriller - ambos do século XVII.
''Hoje seria impensável montar uma coleção como a de meu pai. Ele começou na década de 1950, quando as gemas e fósseis não tinham praticamente nenhum valor comercial.'' Nos anos 1970, o casal e o filho foram de ônibus até Belo Horizonte. Economia para dar conta de comprar um topázio imperial de meio quilo, um dos maiores do mundo. Ragnhild sempre foi a ministra das finanças e as peças foram adquiridas debaixo de muita discussão do casal. ''Sozinho, seria muito difícil ter conseguido realizar toda esta minha obra'', afirmou Guido ao extinto Correio de Notícias, na reportagem de outubro de 1985 que Ragnhild considera a melhor já feita sobre o esposo. A coleção já passou pelas páginas de Veja e Superinteressante - quando foi clicada por Sergio Sade -, por livros técnicos e até mesmo por estas, da FOLHA, em uma reportagem da década de 1990.

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