Dos mares da literatura emergem as faces do povo brasileiro, um herói em busca de sua identidade

Chico Otavio
Na galeria dos heróis descobridores do Brasil, não há lugar apenas para os Cabrais e os Caminhas. Pela rota das palavras, navegaram outros exploradores. Personagens como Bentinho, Policarpo, Riobaldo, Ana Terra e Macunaíma, mesmo antes das primeiras formulações das ciências sociais sobre a identidade nacional, ajudaram o país a descobrir os contornos de seu território e a cara de seu povo.
Se 500 anos não foram suficientes para concluir a travessia rumo à construção de uma identidade nacional, os navegadores da palavra não nos deixaram à deriva. Para além das terras desbravadas pela investigação social de Gilberto Freyre, em ‘‘Casa-grande & senzala’’, e Sérgio Buarque de Holanda, em ‘‘Raízes do Brasil’’, esses personagens revelam aos brasileiros o país da mistura de raças, da luta pelo território, do mergulho nos grotões, do jeitinho para sobreviver, da exclusão e da fé no seu próprio destino.
- Os escritores são intérpretes do Brasil antes da investigação científica. Lima Barreto, antes de existir estudos sobre a cidade. Machado de Assis, antes da história da vida cotidiana. Euclides da Cunha, antes da antropologia. E Guimarães Rosa, ao contar, na história do sertão mineiro, a história das grandes questões do homem - afirma a professora de letras Beatriz Resende.
Para descobrir o Brasil pelos mares da literatura, cada um deles traçou a sua própria rota. Uma delas começou na mata virgem, passou pela cidade grande e terminou no ‘‘campo vasto do céu’’ para apresentar ao país um herói que, apesar de não ter rosto definido, é um retrato do Brasil: Macunaíma, o herói sem caráter de Mário de Andrade.
- Com Macunaíma, Mário consegue desgeografizar o Brasil. O personagem se desloca no espaço e faz um amálgama esquisito, que é o próprio país. Por isso, é herói sem caráter. Ele não tem uma cara. Tem muitas. Macunaíma é a síntese ficcional do autenticamente brasileiro - diz a historiadora Margarida de Souza Neves.
Para a psicanalista Marina Durand, Macunaíma é símbolo brasileiro porque sua conduta pode ser encontrada no dia-a-dia do país, onde as relações cotidianas estão marcadas pelo jeitinho, uma forma quase inofensiva de burlar a lei para resolver um problema.
- O jeitinho é uma conduta do indivíduo que procura se acomodar a uma situação perversa, que o induz a atos ilegítimos por não permitir uma saída íntegra. Isso é Brasil - diz ela.
Enquanto Macunaíma transita entre a mata e a metrópole em sua saga, outro herói incorpora a utopia da unidade nacional sem sair do Estado do Rio. Em ‘‘O triste fim de Policarpo Quaresma’’, Lima Barreto lança seu personagem à aventura de viver mitos nacionais: ao defender a adoção do tupi-guarani, a pureza indígena; depois, ao plantar no interior, a terra fértil; em seguida, ao alistar-se, o ideário republicano e seu sonho de modernidade.
- Policarpo passa por tudo. É burocrata, índio e louco. Homem do campo e militar. E, quando tem uma visão crítica, se rebela e aí morre - explica Beatriz Resende.
Intérprete do tropicalista Macunaíma e do quixotesco Policarpo no cinema, o ator Paulo José não vê no radicalismo ufano do herói criado por Lima Barreto com relação às coisas do Brasil - Policarpo insistia em substituir a língua portuguesa pelo tupi-guarani - uma bobagem. Paulo lembra que, nos primeiros dois séculos após o descobrimento, a língua geral falada no Brasil era exatamente a dos índios, que desapareceu.
Outra rota de descobrimentos leva os brasileiros aos limites do país. ‘‘O tempo e o vento’’, de Erico Verissimo, encara a fronteira como um espelho. Na saga da família Cambará, ao olhar o outro, os que estão do lado de lá, os brasileiros passam a se reconhecer brasileiros.
Nascida em São Paulo, Ana Terra, um dos principais personagens, parte com a família para o Sul e, depois de uma tragédia - são massacrados pelos castelhanos -, segue com uma caravana, carregando a tesoura que pertencia à mãe.
- Ana Terra é a personagem que melhor representa a nossa fronteira. A tesoura da mãe, que ela usa para fazer partos, é uma metáfora. Com a tesoura, Ana vai dar vida aos brasileiros, encher de gente aquele pedaço do país - diz o escritor Doc Comparato.
A busca pela terra prometida - esse traço do caráter nacional - está viva também em ‘‘Os sertões’’, de Euclides da Cunha, a história da formação e destruição do arraial de Canudos. Para a professora de literatura Walnice Nogueira Galvão, ali aparece, talvez pela primeira vez, o drama da exclusão social, nos sertanejos que migraram para o sertão baiano em busca de conforto espiritual.
- O que se vê na obra de Euclides é um quadro brutal de desigualdades, um Brasil mal dividido entre os que tinham muito e os que não tinham nada. O que ele captou como uma definição do caráter brasileiro foi conflito, drama e tragédia - diz.
A relação intensa do homem brasileiro com a fé, vista em Canudos, é retomada, com outra cores, em ‘‘Grande sertão: veredas’’. Deus, diabo. Sim, não. Bem, mal, num diálogo interior.
Brasileiros divididos sobre o que são emergem do mergulho de Guimarães Rosa na alma do país: o jagunço Riobaldo, angustiado em sua paixão, e Diadorim, o companheiro de bando, que esconde quem é.
- A história se passa na República Velha, quando vigoravam valores arcaicos. Diadorim quer ser algo diferente do que é. E só se reconhece sua verdadeira identidade, a de mulher, quando já está morta. Será que só vamos nos reconhecer como brasileiros quando deixarmos de existir como tais? - pergunta a historiadora Heloísa Starling sobre essa busca incessante de uma identidade.
Enquanto Guimarães percorreu os grotões, Machado de Assis penetrou nas profundezas da alma urbana. Embora em ‘‘Dom Casmurro’’ a questão central seja o ciúme de Bentinho e a dúvida se Capitu o traiu, Machado é o retratista de uma classe, uma cidade, um país, sempre em busca de um modelo.
- Os tipos mostrados por Machado talvez sejam o exemplo mais notório de gente que combina ambição social e imitação de modelos estrangeiros, o anseio de estar na onda, de ler (ou pelo menos assinar) as revistas mais chiques, de construir os palacetes ao estilo francês que ainda se encontram em Botafogo e outros bairros cariocas etc. Ou os políticos que enchem os discursos de citações de autores franceses e ingleses - diz o crítico inglês John Gledson.
Ex-seminaristas, jagunços, militares, índios e outros descobridores de Brasil, como a Emília e o Visconde de Sabugosa de Monteiro Lobato, a Gabriela de Jorge Amado, a Macabéa de Clarice Lispector. Como esboçar um retrato único a partir de tantos rostos? A procura pelo porto seguro de uma identidade nacional está só começando. E a professora Beatriz Resende lembra que é uma tarefa sem fim: por ocasião da construção do prédio do antigo Ministério da Educação e Cultura, no Rio, o ministro Gustavo Capanema encomendou uma estátua para representar o homem brasileiro. Mário de Andrade, que o assessorava da época, cuidou pessoalmente do assunto e reuniu escultores para discutir o assunto.
A estátua nunca foi feita.

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