Depois de 15 anos, a mãe ainda acredita que o filho está vivo. É uma dor que só entende quem já tem filhos, uma dor que nunca passa. Era o dia 17 de junho de 1991, por volta das 11 horas, e o menino Guilherme Caramês, então com oito anos e meio, andava de bicicleta em frente da sua casa, no Jardim Social, em Curitiba. A avó já havia chamado o menino para entrar. Afinal, a escola o esperava durante o período da tarde. Era apenas mais uma voltinha, mas o suficiente para o seu desaparecimento. Nem mesmo a bicicleta foi encontrada.
O rosto de Guilherme é familiar para muitas pessoas e mesmo com toda a luta da mãe, Arlete Caramês, o menino nunca foi encontrado. Durante todos esses anos muitas pistas falsas, mas nenhuma que leve ao paradeiro do rapaz. ''Alguém ainda vai abrir a boca, vai falar. Acredito que ele tenha sido levado para fora do País'', diz. Neste período a mãe também não cruzou os braços. Um ano depois foi criada uma organização não governamental, o Movimento Nacional em Defesa das Crianças Desaparecidas, juntamente com outros 12 pais que enfrentavam o mesmo problema.
Algumas crianças foram encontradas, enquanto outros pais se juntaram à luta. O movimento também conseguiu importantes conquistas, como o Sicride, uma delegacia especializada na busca de pessoas desaparecidas. ''Durante esse tempo todo aprendi que o problema é só meu. Em um primeiro momento as pessoas se sensibilizam mas, com o tempo, esquecem. Só que tem de haver a conscientização de que o problema é de todos porque isso (o desaparecimento de um filho) pode acontecer com qualquer um'', salienta Arlete. Na sua avaliação, o maior problema é a falta de conscientização da comunidade em geral.
''As pessoas não estão atentas para o problema, não percebem crianças andando sozinhas ou pessoas estranhas em um determinado local. Muitos também não querem se envolver'', comenta a mãe. Mas, para tentar mudar esse quadro, a ong promove frequentemente palestras em escolas, com a participação de pais, professores e alunos. No entanto, ela acredita que os pais têm de prestar mais atenção aos seus filhos, tentar tirar o máximo de informações dos pequenos e não ''desgrudar'' das crianças em locais de grande aglomeração.
''Tirar um filho de uma mãe é uma dor irreparável. É uma angústia não saber o que aconteceu, mas tenho esperança de descobrir o que houve. Só que a luta deve continuar, não só para que o caso do meu filho não caia no esquecimento, mas também para coibir novos casos'', afirma Arlete. Durante esses 15 anos sem o filho, Arlete já foi vereadora de Curitiba por dois anos e foi eleita deputada estadual. Focada na sua bandeira, a da luta pelas crianças desaparecidas, ela criou algumas leis para tentar coibir a prática.
Entre elas, a que determina que a polícia inicie as buscas por um desaparecimento a partir do registro do Boletim de Ocorrência, sem a necessidade de espera de um período de 24 horas. Uma outra lei só libera que os pais saiam com um recém-nascido com a apresentação da certidão de nascimento.

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