A informação de que o megatraficante colombiano Juan Carlos Abadia, preso em agosto do ano passado pela Polícia Federal (PF) paulista, mantinha em Curitiba uma base de operações onde ainda restariam U$ 35 milhões escondidos em poder de quatro de seus comparsas, inflamou a imaginação de alguns curitibanos que encaram a fortuna do traficante como um tesouro perdido a ser encontrado.
Em uma enquete realizada no portal Bonde, na internet, 57% dos participantes afirmaram que, caso encontrassem o dinheiro, ficariam com ele. Apenas 21% o entregaria à polícia e o restante deixaria a fortuna onde está.
Se algum espertalhão pensa que poderá passar a perna na polícia e no tráfico, procurando por conta própria o tesouro de Abadia, o secretário municipal antidrogas, Francisco Francischini, alerta que qualquer tentativa nesse sentido seria facilmente rastreada.
Segundo ele, a ajuda da população curitibana e da imprensa nessa busca é a última oportunidade de descobrir o paradeiro desse dinheiro antes que a Justiça brasileira entregue Abadia aos Estados Unidos, onde ele será julgado por seus crimes.
O tempo corre contra as autoridades paranaenses nesse caso. Basta que o presidente Lula autorize a extradição do colombiano e a fortuna continuará por aqui, alimentando as engrenagens do tráfico de drogas no Estado.
Tal como as histórias de piratas, que enterravam baús repletos de peças de ouro e jóias em ilhas longínquas, a prisão do colombiano tem passagens mirabolantes, como casas com paredes feitas de dinheiro, mensagens secretas ocultas em figuras virtuais e cirurgias plásticas sucessivas para despistar as autoridades.
''Achava que ele tinha sofrido alguma queimadura no rosto, pois estava sempre com ataduras'', revela Iara (nome fictício), moradora do condomínio, no bairro Campo Comprido, onde ficava uma das residências de Abadia.
Segundo ela, a família do traficante era misteriosa e muito reservada, as janelas estavam sempre fechadas e o carro nunca ficava na garagem e sim do lado de fora. ''Como se estivesse pronto para sair a qualquer momento'', observa.
Dois dias antes da PF bater no condomínio, Iara conta que viu dois caminhões de uma transportadora sairem da casa de Abadia. Depois disso ela conta que a polícia fez várias buscas no local, mas acredita que nada tenha sido descoberto. ''Esse dinheiro deve estar em um lugar onde ninguém espera, não em um lugar muito seguro, mas em um lugar inusitado'', arrisca.
Essa não é a primeira caça ao tesouro que tem Curitiba como cenário. Há mais de um século que moradores da Capital convivem com as lendas sobre o pirata Zulmiro, que desembarcou em Paranaguá em meados do século XIX para depois estabelecer-se no planalto, para onde teria levado seu ouro, fruto de saques empreendidos pelo Atlântico.
Diferente dos dólares e euros do colombiano Abadia, o tesouro de Zulmiro é bem menos substancial. Segundo uma pesquisa do historiador parnanguara Jorge dos Santos, o pirata teria desembarcado na costa brasileira como forma de escapar da forca, depois de ter seu navio capturado por uma nau inglesa.
Sob condição de internar-se no continente e nunca mais aparecer, teria recebido apenas três libras esterlinas e uma bíblia para iniciar uma nova vida. ''Houve pirata sim, mas tesouro é lenda, foi uma brincadeira que ele fez em seu leito de morte'', revela o historiador.

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