Os sons, a escuridão e o sono
Um rádio aqui, outro acolá, seguro nas mãos ou pendurado na parede. O silêncio do pantaneiro isolado na ribeira é quebrado pelas ondas radiofônicas. É a diversão, a informação e o contato com o mundo. Algumas pilhas valem ouro, elas dão voz aos velhos aparelhos. Não há energia, portanto as televisões são artigos raros. Alguns tem gerador a gasolina, mas o combustível é escasso e caro.
Quando a escuridão chega traz consigo a fúria dos mosquitos. Quem não quer ser devorado tem que entrar em casa, fechar as portas e agradecer pela existência das telas que impedem que os pernilongos também entrem. No escuro, sem televisão, computador e toda sorte de eletroeletrônicos, resta conversar. Mas logo o assunto rareia, aí só resta dormir. E ainda são 19h.
As crianças custam a aceitar a chegada da noite. Ainda sobrou muita energia para brincar, conversar e, naturalmente, aprontar. Danilo, Dalvan e Madalena que é a mais velha e ainda não passou dos doze anos, tentam subverter a lógica da escuridão com uma lanterna com dínamo para esticar o dia. Sobem na cama. O grande ''mosquiteiro'', que era para proteger, vai se transformando ao sabor da imaginação dos pequenos. Ora é uma barraca, ora é um castelo, ora o mundo inteiro cabe lá dentro.
Mas energia elétrica não serve somente de suporte ao conforto e à diversão. É necessário refrigerar e conservar os alimentos, acondicionar o pescado para poder vendê-lo. Quando não há gerador, tem que pescar todo dia, pois a fome não segue o mesmo compasso da fisgada.
Para garantir a conservação do alimento é necessário salgar o peixe e a carne. O sal por sua vez se compromete em manter altíssimo os indícies do pressão alta nessa população.(S.R.)





