OS SEM-GRIFE - Gurus In Company
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de maio de 2008
Omar Godoy<br> Equipe da Folha 
Para cada Bernardinho, Max Gehringer ou Arnaldo Jabor que se apresenta Brasil afora, há centenas de anônimos em busca de destaque no concorrido terreno das palestras corporativas. Não se sabe ao certo os valores que esse mercado movimenta - até porque o sigilo faz parte do negócio. Mas a julgar pelo grande número de novatos à disposição, estima-se que seja um filão lucrativo mesmo para quem ainda não representa uma grife.
''Também não saberia dizer esse número, mas acredito que sejam uns bons milhões'', diz o empresário português Paulo Campos, diretor da agência de palestrantes Via Tecla, na ativa há pouco mais de dois anos.
Com escritórios em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba, a empresa administra um ''banco de talentos'' com cerca de cem consultores (como também são chamados os profissionais da área). ''Do ano passado para cá, a procura praticamente dobrou'', revela.
Na internet, há ofertas para todos os gostos e bolsos. De executivos aposentados a esportistas vitoriosos, passando por mágicos, monges e celebridades do terceiro time. O site de uma outra agência paulista chega a dividir os palestrantes em diversas categorias - sobra espaço até para os ''Iniciantes Bons e Baratos''.
A remuneração começa em cerca de R$ 2 mil, mas não é raro encontrar quem fale de graça para ganhar público. Já o teto pode chegar a R$ 100 mil, caso do cachê do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Não à toa, já existe uma escola de formação para o setor. A Academia do Palestrante, em São Paulo, oferece cursos como Teatro para Não-atores (Técnicas Teatrais para a Comunicação em Público) e Empreendedorismo para Palestrantes (Extensivo e Intensivo). A lição é clara: ser bom de bico não é o suficiente. Se o novato não souber gerir a própria carreira, morre na praia.
Cerca de 90% das palestras são realizadas no sistema ®MDBO¯in company,®MDNM¯ com exclusividade para o público de determinada empresa. Os temas giram em torno de quatro núcleos básicos: liderança, vendas, qualidade de vida e motivação. Estes dois últimos, mais universais, são a base do mercado.
De um lado estão companhias cuja filosofia inclui a máxima de que ''funcionários felizes são mais produtivos''. Do outro, há empregados muitas vezes estressados e desanimados. É o território perfeito para os palestrantes, sempre prontos para levantar o moral da tropa.
''No fim dos eventos, todos saem extasiados com a possibilidade de mudar de vida, seja no trabalho ou em casa'', diz o conferencista Diego Berro, paulista que hoje mora no eixo Curitiba-Balneário Camburiú.
Aos 25 anos, e há 6 no mercado, Berro foi considerado pelo Guiness o palestrante mais jovem do Brasil. Também era dele o recorde de palestras realizadas num único dia (11, em Ponta Grossa), mas um colega gaúcho superou sua marca - por apenas um evento.
Diplomado em cursos de neurolinguística, ele garante que seu trabalho não tem nada a ver com auto-ajuda. No entanto, acredita haver uma ligação entre as conferências e sua origem na Igreja Adventista. ''Como nasci dentro da igreja, isso me gera um equilíbrio emocional e espiritual.''
Diego Berro é apenas um dos muitos palestrantes que se lançam por conta própria, sem um histórico de grandes realizações no currículo. Como o ex-servidor público Osmar Coutinho, de 48 anos, que há 15 trocou o funcionalismo pelos auditórios de empresas.
''Existem pessoas que falam com amigos ou colegas de trabalho e, de repente, estão rodeadas de gente querendo ouvir. São pessoas que se sentem bem e sabem dar conselhos interessantes. Era o meu caso'', conta.


