Na entrevista à emissoras de rádio quinta feira-última, o Presidente da República anunciou que está elevando o percentual de superávit primário para reduzir a dívida brasileira e, com isso, no futuro, poder baixar mais a taxa Selic. Disse que há excedente de arrecadação de R$ 8 bilhões no orçamento, e ausência de ‘‘algum projeto que possa ser terminado até o fim do ano’’ que justificasse a aplicação da verba. Como ironiza a articulista Dora Kremer, em sua coluna de sexta-feira no jornal O Estado de S. Paulo, o governo não sabe como gastar esse dinheiro todo.
  Esse aumento desnecessário do superávit é o que se pode chamar de economia sem sentido. Ao invés de se preocupar com a dívida, que de acordo com a equipe econômica está sob controle, o governo deveria dar atenção a algumas prioridades urgentíssima.
  A primeira é a sanidade animal e vegetal. No orçamento do ano passado, o governo incluiu R$ 87 milhões para a defesa sanitária animal e liberou pouco mais de R$ 7 mi (10%). Para este ano, como se o assunto não fosse importante, previu menos ainda: R$ 68 milhões, e até agora não liberou quase nada.
  Alguém do Planalto precisa avisar o presidente que o Brasil exporta mais de US$ 4 bilhões em carnes e que este é um filão que pode aumentar o nosso superávit na balança. Mas, para continuar exportando, é necessário que o sistema de defesa sanitária seja reforçado, sob pena de ocorrerem barreiras como essa que a Rússia acaba de nos impor, suspendendo as importações por conta de um foco de febre aftosa no Amazonas.
  A questão russa pode ser uma manobra comercial, mas isso não faz desaparecer o perigo real que vivemos, dado que a região produtora - Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso do Sul - está próxima do Paraguai e da Bolívia, onde periodicamente se registram focos de febre aftosa.
  Ao não liberar recursos, o governo nos expõe a grave risco que atinge não apenas a economia do Paraná, que anualmente exporta mais de US$ 637 milhões em carnes. Quando se menciona as exportações como sendo o valor direto do risco, é preciso não esquecer os funestos efeitos em cadeia que um foco de aftosa na Região Sul e Centro/Oeste teriam na economia brasileira, pela retenção de estoques, redução de preços, desemprego, falta de renda, perda de mercados duramente conquistados, para não falar na redução das divisas que o governo tanto preza.
  O senador Osmar Dias advertiu para os perigos de nossa fragilidade sanitária e estimou em pelo menos R$ 400 milhões os recursos para evitar um desastre. O que são R$ 400 milhões em relação a US$ 4 bi (R$ 11,5 bi) de exportações? E se ficarmos apenas no que o governo previu em seu orçamento, os R$ 68 milhões? E o que representa isso em relação ao excedente de R$ 8 bi da receita da União?
  Este é um perigo de colapso nas exportações de carne, que pode suspender parte das exportações de soja e milho produzidos em Estados atingidos pela aftosa, ante o perigo de contaminação dos rebanhos dos países importadores.
  Os assessores do presidente poderiam avisá-lo que as nossas rodovias, ferrovias e portos viraram sucata e precisam pelo menos de manutenção urgentíssima, sob pena de comprometer o escoamento da safra. O pior é que existem recursos da CIDE, uma contribuição paga na compra de combustíveis e que se destinam a obras de infra-estrutura. São R$ 18 bi que o governo mantém na gaveta enquanto os caminhões se atolam nos lodaçais, quebram eixos nos buracos, os trens despencam da ponte e saem dos trilhos nas curvas, os portos forçam filas de caminhões e de navios.
  Será que desse excedente de receita não sobrariam alguma coisa para atender emergências? Será que não existem projetos de infra-estrutura que para aumentar nossas exportações e gerar saldos de divisas que estão ajudando a nos tirar dessa economia modorrenta que quando cresce um ‘‘tiquinho’’ já é motivo de foguetório?
  O Presidente da República que me perdoe, mas que essa economia é uma economia burra, é!

Ágide Meneguette é presidente da Federação da Agricultura do Estado do Paraná
(Faep)

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