Quando o engraxate Espiridião Alvez de Souza chegou para trabalhar, há duas semanas, levou um susto. Seu ponto fica na Avenida Luis Xavier, próximo da Praça Osório, em frente ao tradicional Café da Boca. Todos os dias, há 30 anos, ele tomava um cafezinho no local para começar o dia bem. Ao longo do dia, Souza consumia mais cinco xícaras da bebida. Porém, ficou surpreso quando chegou e viu o Café da Boca fechado. Logo em seguida soube que as portas não iriam mais abrir. ''Aqui era servido o melhor café da cidade. Com R$ 1 eu comprava o café mais puro que existia. O Café da Boca era um patrimônio da cidade. Não podia fechar'', reclama.
O engraxate lembra que personalidades políticas como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente João Figueiredo já passaram pelo Café da Boca. Turistas visitavam o Café por acharem o local um importante ponto de encontro da cidade. Souza tem opinião formada sobre o fechamento. ''Quando o filho do dono assumiu o Café, tudo começou a piorar. Não sei o que deu na cabeça deles. A gente fica triste com isso'', desabafa.
A história do Café da Boca começou há mais de 40 anos, quando Mohamed Abdul Kader Kadri assumiu o ponto e abriu o estabelecimento. Em 1985 o local atingiu o auge e chegava a vender 2,5 mil cafés por dia. Quando o proprietário morreu, em 2000, a família recebeu uma boa proposta e vendeu o Café.
Omar Kadri, neto de Mohamed, possui uma lanchonete na Galeria Tijucas chamada Kibe da Boca. ''Ficamos chateados por terem fechado o Café'', lamenta Kadri. A família possui outro café, localizado na Praça Osório, que também leva o nome de Café da Boca, mas não fica na região conhecida como Boca Maldita.
O aposentado Benedito Rodrigues pode ser considerado um poeta. Para ele, tomar um cafezinho é acontecimento nobre e raro, já que só possui este privilégio quando tem dinheiro. Tendo um trocado no bolso, corre para a Boca Maldita degustar a bebida. Ele frequentava o Café da Boca e atualmente é cliente do Café Avenida, também localizado na região. ''Um dos donos do Café morreu. Deus levou ele. Era o melhor café da cidade. E esta é a melhor cidade do mundo. Quando falo isso meu coração bate mais forte'', declama Rodrigues.
As opiniões sobre o motivo do fechamento e a qualidade do Café da Boca são divergentes. Antônio Veridiano é aposentado e vai para o tradicional ponto da Capital quatro vezes por semana para se distrair, conversar e ver os amigos. Ultimamente já não frequentava o Café pois a qualidade do atendimento caiu. ''Eles relaxaram. O café piorou e o estabelecimento faliu'', explica Veridiano. Enquanto alguns dizem que o Café passará por reformas, outros afirmam que fechou de vez e o ponto está disponível para locação.
Tem gente que vai até a Boca Maldita todo dia, como é o caso de Manoel Laffitte, que segue a tradição há 15 anos. Ele não tomava o café servido no local que fechou. ''Eu entendo de café. Lá tomei uma vez e nunca mais. O Café da Boca foi bem durante um tempo mas nos últimos anos abriu muito Café perto daqui'', explica.
Às vezes, Laffitte se encontra com José Picolin, empresário do ramo educacional, na região da Boca Maldita. Ele também não apreciava o café servido lá, mas gosta de encontrar os amigos e prosear. ''Não gostava do café, mas, se hoje eu tomasse, ficaria feliz, pois o Coritiba foi campeão. Adorei!'' O Café fechou, mas tudo continua.
Os proprietários do Café da Boca não foram localizados pela reportagem.

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