Os grandes prazeres da carne
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quinta-feira, 29 de maio de 1997
Fabiano Camargo 
Marcelo AlmeidaO churrasco e as churrascarias, que já viraram até tema de música de uma banda local, são uma paixão do curitibanoTodo domingo é tradição / Espeto corrido é nossa refeição. Sai com essa salada, não quero mato pra ruminar / Desce já essa carne, não aguento mais esperar./ Eu passei dois dias a pão e água imaginando o que vou traçar / Agora chegou a hora: vou me esbaldar nesta churrascaria. Esta ode aos prazeres da carne (assada), registrada na letra da música Espeto Corrido, da banda curitibana Skuba, traduz bem os sentimentos que uma grelha, alguns espetos, um punhado de carvão e fatias de carne bovina podem despertar. Em certos casos, o gosto por um bom churrasco ganha contornos de paixão. Tal fato frequente em Curitiba - talvez pela proximidade dos pampas, talvez pelo poder de espantar o frio que uma churrasqueira também pode exercer.
Apesar dos tempos de economia enxuta terem afetado as churrascarias, as mais tradicionais continuam lotadas nos fins de semanas. O curitibano não vive sem um churrasco. Se o dinheiro está curto, as pessoas vêm menos vezes por semana, mas não cortam totalmente. Nos finais de semana, então, já virou um programa tradicional de muitas famílias, conta o proprietário de uma das churrascarias mais tradicionais da cidade - a Napolitana -, Edemir Pramio, 59 anos.
Marcelo AlmeidaO cliente de uma churrascaria é muito fiel, mas tem muita pressa, conta Edemir Pramio, proprietário da Napolitana
Segundo ele, os clientes das churrascarias parecem ser mais fiéis que os de outros restaurantes. Por outro lado, são mais exigentes no que diz respeito ao tempo de espera. Se o garçon demorar mais de três minutos, já reclamam, conta este gaúcho descendente de italianos que, desde que abriu o negócio, há 26 anos, já ensinou mais de 50 churrasqueiros.
Realmente, numa churrascaria, não é legal perder tempo, confirma o músico Rodrigo Cerqueira, 26 anos, baterista da banda Skuba e um dos autores da letra de Espeto Corrido. A carne desperta um sentimento animal que precisa ser saciado imediatamente. Junto com os outros seis integrantes do grupo, ele costuma tomar de assalto as casas especializadas no rodízio de carnes. Só evita fazer isso antes de um show. Às vezes passamos da conta e aí passamos é mal, admite, lembrando que a inspiração para escrever a letra veio de uma conversa de botequim sobre quais eram os melhores rodízios da cidade.
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Além dos prazeres da carne, as churrascarias atraem também pelo clima mais informal. Você pode comer bastante - se empanturrar mesmo - que ninguém vai reparar, diz o estudante Juarez Marques, 24 anos, que costuma manter sua forma avantajada - são 110 quilos - comendo churrasco de duas a três vezes por semana. Também estudante, Caroline Monteiro, 20, é uma das que tem que fazer ginástica em ritmo dobrado para não abrir mão de uma picanha ao ponto, seu ponto fraco. Sei que engorda, mas não resisto. Prefiro malhar mais do que deixar de comer.
Ela deve concordar com um dos lemas de Edemir Pramio, da Napolitana, que sempre retruca os vegetarianos com o seguinte ditado: o que faz mal é não comer carne. Apesar de ter reduzido o ritmo para controlar o colesterol, ele não deixa de saborear com frequência seu prato predileto: uma picanha no capricho, que ele mesmo faz utilizando alguns temperos secretos que cultiva no quintal.


