Dona Ruth Lickfild, 55 anos, acorda diariamente às 6h30 da manhã para cuidar da horta. Em sua propriedade de dois alqueires, ela cultiva atualmente alface, morango, brócolis, almeirão, couve e escarola, tudo produzido de forma orgânica. O trabalho na plantação lhe toma o dia inteiro e às vezes até a noite. ''Se tiver boa lua aproveito para pulverizar'', emenda.
Moradora de Piraquara, município da Região Metropolitana de Curitiba (RMC), Ruth não conhecia o termo ''Cinturão Verde'' usado para designar a área em torno da capital paranaense responsável pela produção de metade das hortaliças consumidas no Estado. Sua participação já foi maior, respondendo por 70% da produção anos atrás. Segundo Maurício Lunardon, técnico do Departamento de Agricultura Rural (Deral), outras regiões vêm ganhando importância na produção de hortaliças, como os municípios da Região Metropolitana de Londrina, Apucarana, algumas cidades do Oeste do Paraná e do Litoral, onde o risco de geadas é bem menor. Segundo o técnico do Deral, a produção da RMC gira em torno de 1,2 milhão de toneladas, enquanto que a produção paranaense é de 2,4 milhões.
Por tr®MDNM¯®MDNM¯ás desses números existem pessoas como dona Ruth, que fazem da terra não apenas o ganha pão, mas também sua realização pesoal. A rotina não é moleza, ela conta apenas com a ajuda do filho mais velho e somente no período da tarde, pois o jovem é motorista de ônibus na parte da manhã. ''Se eu contar, a mulherada não vai acreditar'', diverte-se a agricultora, que sozinha planta, colhe, pulveriza, compra e vende sua produção. Quase tudo o que têm na despensa veio do próprio quintal, no mercado compra apenas produtos de limpeza e itens elaborados, como açúcar e farinha. ''O resto vem tudo da terra e dos bichos'', conta ela. A banha para frituras vem do porco, os ovos, do galinheiro, e o leite, das duas vacas que possui.
Os maiores compradores de sua produção são pequenos mercados da região e os ''bicicleteiros'', que compram os legumes para vender de casa em casa. Há alguns anos, ela fornecia para grandes redes de supermercado, mas abandonou essa clientela, pois considerava-se explorada. ''No clima e nas pessoas não dá para confiar'', reflete.
Se vendesse sua propriedade, Ruth poderia parar de trabalhar, mas ela nem considera essa possibilidade. Prefere o labor ao ócio e afirma que não saberia ficar longe do trabalho na terra. Em tom de brincadeira, a reportagem da Folha indagou a ela o que faria com um dia de folga. Ela respondeu - após refletir bastante - que usaria o tempo para pesquisar novas tecnologias agrícolas. Incansável, ela conta que antigamente ''corria contra o tempo'', hoje não. Com a sabedoria lapidada pelos anos na roça, Ruth afirma que não adianta tentar apressar a natureza, é conhecendo o tempo de cada coisa que consegue melhores resultados.
Sua senda agrícola criou condições para que as três filhas fizessem curso superior e não precisassem mais trabalhar na terra. ''Já trabalhei para 100 gerações'', afirma Ruth, que começou com um pequeno lote e dele extraiu os frutos de seu futuro.

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